cinco poemas de Carlos Barbosa

queda

ainda caminho de lado,
com as mãos na parede
para não cair,
como fazia na primeira infância,
já corroída na memória

caminho de lado
para não cair
definitivamente em mim

a porta no chão

a John Irving

há duas portas em meus olhos,
do tipo corta-fogo
há uma dura mão-de-pilão
em meu coração

minhas mãos,
toda manhã,
colhem o orvalho que cobre meu peito

há sempre uma porta no chão,
meu eterno tropeço

o menino e eu

tenho dor, obrigações e conta bancária

o menino tem fantasia
e histórias pra contar

por isso me consumo em fortalecê-lo:
quando eu partir, ele prosseguirá

o poste de ferro

o poste de ferro cantava,
quando nele a gente batia,
toda vez que passava
no caminho da escola

o poste de ferro era
um violão sem cordas

meio-dia,
o poste ainda cantava
uma canção aflita,
de órfão desnudo,
no areão fincado

desligado do mundo,
o poste de ferro aguardava pelo toque,
todo dia,
para lembrar o tempo
em que bem servia ao telégrafo

o tempo em que vingava
seu bom ferro,
em que não cantava aflito,
cravado no areão,
mas sustentava, sim,
o doce milagre
de sinais e vozes viajantes
e bandos de andorinhas
num sempiterno verão

borboletas baianas

tomo conhecimento das borboletas baianas,
não das que vejo nos jardins,
mas daquelas que voejam em casamentos

nossas borboletas fazem sucesso
em casórios Brasil afora
viajam de avião,
em caixinhas com furos para ventilação

as borboletas são exigência de noivos românticos:
querem com elas embelezar
suas histórias de amor

mas são caras nossas borboletas,
muito caras
precisam ser contadas
para o devido pagamento
e para tanto,
colocam as caixas por um tempinho em geladeiras:
é que assim as borboletas desmaiam
e é possível então fazer a contagem

por fim, as caixas são levadas ao pé do altar
e lá aguardam pelo grande momento,
as sobreviventes

após o beijo do novo casal,
as borboletas são soltas
mas estão fragilizadas, tontas, combalidas

então o pessoal dá o último toque ao show:
batem nas caixas para espantar as borboletas
que se projetam no ar
em arquejo final de vida,
para morrer em seguida em pleno voo

ou onde quer que pousem,
depois de obterem o aplauso da plateia
e ares de extremo contentamento
dos nubentes,
aquele batalhão de borboletas baianas

borboletas que viajaram de avião
e desmaiaram no gelo
em suas curtas vidas de tortura e horror
para beleza e glória do amor

| poemas que integram Inventário da triste figura, livro inédito. |

Carlos Barbosa nasceu no sertão do São Francisco, interior da Bahia (1958), e vive hoje em Salvador. Graduado em Jornalismo e Direito, tem romances, livros de contos, de minicontos e de poemas publicados desde 1998. Tem participado de antologias e coletâneas de contos. Mantém um blog, Minicontos, no qual publica textos inéditos e comentários sobre livros cuja leitura recomenda. Segue em dúvidas e dívidas, longe de divididas, em cultivo de amizades.