as batatas, de Antônio LaCarne

Dentro de um depósito de plástico sobre a pia da cozinha estão três batatas cozidas e descascadas — para que você as coma antes de fechar a porta para sempre e não atender às minhas súplicas. Deixei molho na geladeira. Peço então que não mande mensagens ou que me informe, didaticamente, que sou uma pessoa maravilhosa e que mereço alguém à minha altura. São bobagens terríveis que ninguém precisa trazer à tona. Meus ouvidos é que merecem ser poupados. Por favor, lave o depósito e os talheres. Não esqueça de fechar bem a torneira, é preciso observá-la por alguns segundos para ter certeza. Inclusive eu poderia ter envenenado as batatas. Pela tua distração de escorpiano, só encontraria o bilhete ao vomitar pela primeira vez, desconfiado de que fui maquiavélica o suficiente, demoníaca, satânica. Você sempre foi impressionável, fuçando as minhas coisas, esmiuçando as anotações escondidas nas caixas. É bem típico dos teus erros não descobrir informações práticas. Acusou-me de feitiçaria ao encontrar o livro sob o travesseiro, como se a literatura não fosse um dos meus maiores prazeres. Não tomou o vinho que comprei e que escolhi atentíssima, manteve o tom irritado durante o jantar, tocando no mesmo assunto, fazendo-me prometer que eu não mexia com qualquer meio obscuro de alcançar os desejos. Se por acaso as pesquisas e os rituais me trouxessem verdades, teria nas mãos a certeza de que você foi a pessoa errada. Teria me poupado o trabalho de me desfazer do veneno, de jogá-lo no ralo, e de descascar as três batatas que você saboreia com o meu sangue; pois nunca fui muito boa em manusear facas.

Antônio LaCarne é cearense, autor de Salão Chinês (Editora Patuá, 2014), Todos os poemas são loucos (Gueto Editorial, 2017) e Exercícios de fixação (AR Publisher, 2018). Tem poemas publicados na Colômbia, Alemanha e Grécia.