nanete em dó maior, de Mário Sérgio Baggio

Alguém cantava longe dali, era um homem, e a voz chegava abafada. A mulher apurou os ouvidos, queria escutar, a música trazia alívio. Estava sozinha no barraco com três crianças, o mais velho ardendo em febre. Quando acreditava ouvir barulho de carro ou de pata de cavalo se aproximando, corria para a porta, os olhos ansiosos. Procurava e não via ninguém. Voltava então para o quarto — que também era sala e cozinha, o banheiro ficava fora — e se jogava na cadeira, numa espécie de inconsciência em que o tempo não passava e, quando passava, só aumentava sua ansiedade.

O barraco era o retrato da miséria, tão sujo e velho, tão nada. A vida ali dentro era vivida entre terra e fuligem. Virava barro quando chovia e tornava-se quase inabitável não fosse a teimosia em permanecer ali. Ela sabia que não poderia sair, não tinha outro lugar para ir com os filhos. Havia um marido, que trabalhava longe e só de vez em quando voltava para casa. As gêmeas, Joana e Catarina, se distraíam no chão com bonequinhas encardidas de pano. Geraldinho, o mais velho, gemia baixinho em cima da única cama. Não reclamava, só pedia água o tempo todo, a garganta em brasa.

Pensou ouvir vozes e correu até a porta, talvez fosse alguém chegando, mas não era. Geraldinho chamou por ela Mãe, não era o papai? Ela levou um copo d’água Não, seu pai vem outro dia. Não era ninguém. Pôs a mão na testa do menino, a febre ainda lá. Eu vi ele, mãe, tava aqui e me trouxe um presente. A mãe não respondeu, fez que não ouviu. Sentou-se na cama, arriou como arriam os troncos velhos que apodrecem por dentro e um dia caem sem que se espere. Precisava dar um remédio ao menino, mas como? Por onde andava o marido ela não sabia, mas

seguramente devia estar trabalhando, era obrigação do homem que tinha mulher e três filhos, e ela ali pensando no que fazer, e o menino doente, e as meninas daqui a pouco vão pedir alguma coisa para comer, e ela vai dar o quê? Não quer que o marido volte e encontre gente morta naquele barraco miserável. A voz do cantor ainda chegava até lá, a mulher ouvia de olhos fechados.

Um carro passou ali perto e parou. Ela foi ver. Alguém veio subindo. Primeiro viu um chapéu, depois uns ombros, logo um homem inteiro veio se aproximando devagar. Ela esticou as narinas para receber mais ar, o coração aos pulos. Seu primeiro impulso foi entrar e fechar a porta, mas não fez, ficou parada, olhando, esperando.

É aqui que mora o Teodoro? Ele está? Tenho um serviço pra ele, o vozeirão soou e ele nem estava tão perto dela ainda. A poucos passos, ela olhou nos olhos do desconhecido e respondeu, envergonhada, Tá fora, trabalhando, volta semana que vem, acho. O homem parou Que pena! e olhou com mais atenção para a mulher. Ela sentiu, mais que compreendeu, que naquele que pena!, junto com o olhar, havia outro significado escondido.

Quando ele voltar, diga que Baltazar esteve aqui procurando por ele. Fale que tenho um serviço, o homem falou e continuou parado, olhando para ela. Não fez menção de ir embora e enfim tirar a mulher daquela agonia, daquela situação incômoda. Ficou ali, parado, os braços imóveis, só o olhar parecia ter vida. Sem saber direito o que fazia, a mulher estendeu as duas mãos e, em súplica, abriu a boca e falou Me dê alguma coisa, por favor, um troco qualquer, uma nota, uma moeda, qualquer coisa.

O desconhecido a mediu inteira com os olhos. Era uma mulher magra e desnutrida mas ainda assim bonita, apesar da pele castigada. Como é seu nome, criatura?, o vozeirão a sacudiu. Nanete, voz débil. Ernestina, mas me chamam de Nanete. E continuou: Um trocado, meu filho tem febre, preciso comprar remédio e alguma coisa pra comer, tenho duas gêmeas também, logo vão pedir comida e eu não sei o que fazer, o dinheiro que o Teodoro deixou já foi, ela chegou ao fim da frase sem respirar. E finalizou: Eu dou, se o senhor quiser. Quis morrer por dentro, Teodoro não a ouvisse assim, biscate, pensando em sujeira numa hora daquelas. Baltazar ouviu, fez silêncio e depois sorriu de leve, Dá, é? Ela, rápida, Dou. Tinha música no ar, o homem olhou ao redor para descobrir de onde é que vinha. É algum cantor que mora aí na vizinhança, ela se apressou em esclarecer.

Nanete saiu da porta e deu passagem para o homem, que entrou e olhou em volta. Viu o menino dormindo sobre a cama, o corpo franzino e a cara vermelha de febre. Sorriu de leve quando olhou para as gêmeas brincando no chão. Fez cara de nojo quando volteou o olhar para o teto e as paredes do barraco. Não quero comer, não tenho tempo, mas uma gozada agora não vai mal, disse o muito cafajeste. Chupa? Ela: Chupo. Ele: Engole? Ela: Engulo, e cobriu o rosto com as mãos para que as lágrimas não descessem. Ele abriu o cinturão e abaixou a calça, ela indicou Ali, atrás do fogareiro. Ela se ajoelhou e sentiu o cheiro de mijo que vinha do membro a dois centímetros de seu rosto. Fique de costas pra lá, não deixe que as meninas vejam, não faça barulho para não acordar o menino, ela pediu, antes de fechar os olhos e abrir a boca. Ele puxou a cabeça dela contra si e mexeu os quadris. Gozou. Abra a boca, quero ver se engoliu mesmo. Ela

obedeceu. Bom, disse ele subindo a calça e ajustando o cinturão, fala pro Teodoro me procurar. Deu o dinheiro a ela e saiu.

Geraldinho chamou Mãe, era o papai? Ela tapou a boca para responder, o menino não a visse cuspindo nem sentisse o cheiro insuportável do esperma, Não, seu pai vem depois, mais tarde, outro dia. Vou sair e comprar um remédio pra você e um pouco de comida, aguenta ficar aí sozinho e cuidar das gêmeas? Vou num pé e volto noutro, é um instantinho só. Prendeu os cabelos, jogou uma blusa surrada nos ombros e saiu apressada. Numa das mãos, bem apertadas, as notas que o sujeito tinha dado. Na cabeça, o pensamento claro Não é dinheiro sujo, não me arrependo, é pras crianças.

Já na rua, passos apressados, quase correndo, ouviu a música com mais nitidez. O cantor caprichava no Dó de peito.

Mário Sérgio Baggio é jornalista, morador de São Paulo — Capital, atua como Redator freelancer produzindo conteúdo para websites, blogs e redes sociais. É dono do blog Homem de Palavra.