resenha do romance ‘Essa gente’, de Chico Buarque

Por Leonardo Valente

capa_buarqueMuitos gigantes vivem em um Chico Buarque, mas dois que sempre se destacaram de forma especial, ainda que em caminhos e estilos distintos, o compositor e o escritor, em Essa gente (Companhia da Letras, 2019), o mais recente e em minha opinião seu melhor romance, são convertidos em um só. Trata-se da obra do romancista que mais se aproxima do compositor. Aproximação na temática, onde a crítica sofisticada e ao mesmo tempo incisiva ao fascismo e ao elitismo colonialista de nossos dias remete ao Chico que se levantou contra a Ditadura Militar; aproximação no estilo narrativo, não raro sonoro e melodioso como suas músicas. Essa gente é um romance ao mesmo tempo simples e multifacetado, e sua história principal pode ser comparada a um rio carioca e caudaloso que desemboca no oceano profundo da formação social brasileira, e nas contradições, superficialidades e hipocrisias sui generis de suas elites.

Os pequenos capítulos seguem tendência da prosa literária contemporânea, especialmente a urbana, e a construção deles como um diário, o que permite com certa facilidade idas e vindas na história, concede dinâmica e facilidade de leitura a um texto denso, musical e ao mesmo tempo áspero, de vocabulário notoriamente bem calculado e repleto de camadas interpretativas. O resultado é um livro que pode agradar a leitores com diferentes níveis de exigência e de expectativa (alguma semelhança com as músicas do outro Chico gigante?), assim como provocar diferentes reações.

Duarte é o escritor decadente protagonista, sem dinheiro, mas sem perder a pose, destruído afetivamente, e que poderia se encaixar tanto em um livro de literatura policial quanto em um estudo de caso antropológico sobre nossa Casa Grande contemporânea. O Leblon é bairro nobre carioca protagonista e igualmente decadente, que no retrato de Chico consegue resumir em si todas as mazelas e tristezas de uma elite responsável pelos erros do passado e pelas mazelas distópicas do agora brasileiro. Duarte é o que Chico poderia ter sido, é o que muitos Chicos provavelmente viraram, seres indiferentes emocionalmente e ignorantes intelectualmente em relação ao país que despenca sobre suas próprias cabeças. Personagem que parece o avesso de seu criador, mas o avesso, apesar de ser o oposto, é muito mais próximo do que distante, pois está colado do outro lado. Duarte tem muito de Chico e é ao mesmo tempo tudo o que ele nunca foi. Já o Leblon é o que o Brasil queria ter sido, e Essa gente também mostra o quanto os desfavorecidos se deformam em valores e compromissos ao desejarem tornarem-se iguais aos que lá vivem; Essa gente, por mais que doa constatar, é formada tanto pelas dondocas e garanhões do bairro, quanto pelos passeadores de cães e moradores de comunidades que por ali circulam. Nossa elite é prodigiosa em converter Chicos potenciais em Duartes reais, e o Leblon em fazer com que os pobres aspirem uma sociedade ainda pior do que a que já temos.

Não se trata, contudo, de um romance político no sentido estrito do termo, nem de um romance histórico, apesar da enorme contribuição para o entendimento sobre o tempo presente. Assim como suas músicas que tocam nas feridas da Ditadura Militar, Essa gente é muito mais do que um texto crítico sobre nosso momento político, é antes de tudo, e principalmente, uma história sobre as relações humanas.

Ter o Rio e suas mazelas como cenário principal de uma obra com essa proposta também é extremamente significativo, traz de volta uma de suas características mais peculiares e há algum tempo perdida: a de se tentar compreender o país por meio de suas veias e de sua gente. Joga ainda a cidade — que por vários motivos andava meio distante da cena literária relevante do Brasil de hoje — no olho do furacão da produção ficcional e, consequentemente, no centro das atenções. Chico e seu novo romance têm força suficiente para produzirem esse movimento, ainda que por um tempo.

Essa gente é a primeira obra ficcional publicada, de peso e notoriedade, a se passar no desgoverno de Jair Bolsonaro e a retratar as relações sociais e afetivas nesses tempos sombrios. Bom que tenha vindo de Chico o primeiro romance com essa característica, e justamente o seu melhor livro. Sinal de que, assim como suas músicas, a obra extravasará sua função primeira e se tornará um grande instrumento na disputa futura pela narrativa e pelos afetos, tão fundamental para que essa gente não volte a fazer o que hoje faz com o Brasil.

Leonardo Valente é escritor, jornalista, cientista político, e diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. É autor do romance O beijo da Pombagira (2019), finalista do Prêmio Rio de Literatura, da antologia Apoteose (2018), finalista do Prêmio Sesc de Literatura, e do romance Charlotte Tábua Rasa (2016). É um dos autores da primeira edição impressa da revista gueto, com o conto “criogenia do inconsciente ou manifesto pelos prazeres perdidos”, além de ter participado de outras antologias e coletâneas. Participou da Primavera Literária Brasileira, na França em 2019, e é um dos autores convidados para a edição 2020.