ypy, de Fred Di Giacomo

Ypy (tupi-guarani): Primeiro, começo, origem.

“E Ele disse: Pega agora o teu filho, o teu único, a quem amas, Isaac, e vai à terra de Moriá. E lá o oferece em holocausto em uma das montanhas que eu indicarei.” (Gênesis, Capítulo 22, versículo 2)

Ninguém contará os anos desprendidos até ali. Não importa. Mirem-se na silhueta cinza aproximando-se contra a luz. A figura que caminha em nossa direção é a do velho pai. A brancura de sua barba já não pode ser disfarçada; suas costas curvam-se sutilmente e os olhos traem a percepção. Ele não sabe, mas está prestes a iniciar nossa saga.

No tempo que observamos agora, o senhor (vamos chamá-lo alegoricamente de Rupave) tinha cinco filhos. Dois haviam saído de casa e habitavam as matas dos tapuy-ú. Um terceiro, casado, fizera sua roça na região dos grandes morros. Os mais novos acabavam de ser convocados, numa estrondosa explosão paterna, a adentrar, um de cada vez, a sala principal da ampla oca. Naquele vagaroso dia de verão, a natureza ignorava a agitação humana. Cada folha despencando das árvores esperava uma eternidade para alcançar o solo. Os gritos desesperados do filho de dentro aterrorizavam o filho de fora. Com voz firme, Rupave chamou o segundo:

— Vinde, semente minha, não hesites em obedecer-me.

Tumé Arandú engoliu em seco e entrou. O cômodo escuro estava iluminado por aromáticas fogueiras de ervas que disfarçavam o cheiro de sangue fresco. Japeusá, encolhido num canto empoeirado, chorava baixinho. Tumé Arandú não percebera, mas, assim como sucederia com ele minutos depois, o pé de Japeusá tinha sido esmigalhado.

O canto ingênuo dos pássaros não combina com o choro pesado dessa mulher que vocês enxergam no interior da cabana. Ela acaba de descobrir a tragédia que tatuou suas crias. O nome com que os pais da matriarca batizaram-na foi Sypave. Seus filhos estão aleijados e tentam adaptar-se à dolorosa condição. Rupave parece ter rejuvenescido anos. Sai sempre na frente da prole: para trabalhar a roça, para rastrear as antas, para roubar o mel das abelhas e para caçar o tempo perdido. Tumé Arandú e Japeusá esforçam-se para acompanhá-lo. É-lhes indecifrável o súbito acesso de violência paterna. Por que Rupave emergira em crueldade naquele dia banal? Ainda nos é desconhecida a resposta. Por mais que o pai gritasse, ralhasse e humilhasse as crias, nunca mais encostaria as mãos em Tumé Arandú ou Japeusá. Suas próximas vítimas habitam dias futuros. Rejuvenescido, o patriarca procura Sypave todas as noites para espalhar suas sementes. O desejo transborda do corpo e faz com que ele namore bananeiras, jacus e esposas maduras. Nunca mulheres virgens, nem jovens, nem solteiras. Não quer filhos de outros ventres, e do ventre de sua mulher só saem rebentos marcados. Ao acordarem para a vida, os pequenos têm o pé esquerdo estraçalhado. São já sete aleijados em idades diversas e, por mais branca que sua comprida barba fique, Rupave sente-se forte como nunca. Carrega toras de madeira nos ombros, cavalga onças selvagens, enfrenta serpentes sorrateiras e faz-se temido por todos os pequenos deformados. Nunca foi violento com nenhum depois de tê-los “batizado”. Esse batismo ocorre assim: cada criança parida por Sypave é arrancada, ainda aos berros, pelo pai, que esmaga o pequeno e rosado pé com um tacape dourado. Herança paterna assegurada, o cordão umbilical continua inteiriço, até que a mãe tenha forças para rompê-lo. O nome do descendente é dado antes da aplicação do castigo preventivo.

Dias correm sem que se faça importante descrevê-los. Por todo o inverno nenhum viajante se aproximou da oca. Depois de vasta solidão, a primeira conhecida a visitar a família foi a Tragédia. Era tempo de plantar sementes e germinava no ventre materno o pequenino Porâsý. Porâsý nascera anêmico, torto dos ossos e com membros atrofiados. Seu choro era um fiapo, um discreto miado que pouco se ouvia. Prevendo o pior, Sypave, que tivera as forças sequestradas pelo parto, balbuciou misericórdia:

— Por favor, meu marido, por favor, meu senhor… Este, não. O pequeno não vai aguentar. Seu corpo é tão carente… Um golpe do tacape vai levá-lo para sempre… Pelo nosso amor, eu lhe imploro…

Rupave contempla a triste figura profundamente. O pequenino não parece grande ameaça, mas quem conhece os caminhos que o futuro reserva para Porâsý? E, se hesitasse, o que pensariam de sua fraqueza as demais crianças? Perceberiam-no débil? Reconheceriam-no senil? Não podia confiar no acaso. Firme, mas com coração pesaroso, esmigalha a perninha de Porâsý. O enterro da criança se dá no mesmo dia.

A mágoa de Sypave faz com que ela se negue a deitar-se novamente com o marido. Nem a privação de comida, nem as surras e castigos convencem a esposa a voltar para o leito do patriarca. Em um lampejo de violência, Rupave recorre à autoridade de seus músculos, mas desiste quando encontra, nos olhos da amada, o ódio amaldiçoador das mulheres seviciadas. O que Sypave espera dele? Não pode mais abrir mão de seu ritual. Sem ele, perderia o segredo da sua juventude, e os pequenos diabinhos reinariam sobre o casal original, saltitando léguas a sua frente, tomando conta da casa e conhecendo terras e pessoas com as quais os dois jamais poderiam sonhar. Não, nada feito; o mundo não deve insistir em rodar.

— Eu preciso da vida dos meus filhos, Rupave. Quero que eles tenham sua existência garantida, mesmo que aleijada. Não quero enterrar, nunca mais, um pedaço meu.

Nos primeiros suspiros da madrugadora aurora, Rupave sai em direção à pradaria, sozinho e pensativo. Lá, medita à base de ervas e água do orvalho. No sétimo dia, pode retornar a casa iluminado. Os filhos terão sete anos para ficar fortes e nutridos — e então se tornarão homens completos. Tirando o excesso de alegria dos olhos daqueles demônios, Rupave espera prepará-los para o fardo da vida real. E evita que andem por caminhos que suas pegadas não tenham marcado ainda.

O pai já cruzava a faixa dos 70 anos quando desposou Caupé, jovem viúva de seu filho Marangatu. Marangatu era estéril e morrera sem deixar descendentes. Fazia parte da tradição que o irmão mais velho desposasse a viúva e garantisse sucessores para o morto. Mas reparem em Caupé; sintam o cheiro de mel vindo do seu corpo, percebam a pele sedosa feita de pêssego, os seios firmes como seu caráter e o negro da noite represado em seus olhos. Caupé brilhava, sim; brilhava e irradiava juventude. Isso era o suficiente para que Rupave a tomasse como mulher, alterando o código dos antigos. Agora o mais velho da família deveria desposar as viúvas, contanto que suas sementes ainda fossem férteis. Corria, pelas redondezas, o boato de que Rupave já não podia efetivar sua descendência. Sypave não lhe dava filhos havia três anos. Fiel, a mulher havia gerado, em seus 60 anos de vida, 27 rebentos para Rupave — 22 aleijados, dois mortos e três, os mais velhos, exilados pelo medo do castigo paterno. As mágoas e os anos vividos faziam-na sentir o ventre endurecendo. Os sangramentos já não vinham visitá-la e o viço abandonara sua pele ao apetite faminto das rugas.

No céu escuro, a lua esconde-se, solidária ao sofrimento daquelas mulheres. Dentro da cabana, Rupave conduz Caupé pelo braço. A jovem vermelha tem os cabelos enfeitados com uma coroa de flores brancas. Uma saia de palha e um cinto de tucum tomam emprestada a beleza de seu corpo, que treme de medo. Rupave ordenou a Sypave que fosse dormir em rede distante, com os filhos mais novos; poderia retomar seu lugar na segunda-feira. Agora os finais de semana ficam guardados para Caupé. Acabado o domingo, a anciã deve trocar os lençóis manchados de amor e voltar ao posto de matriarca. Com os olhos umidamente salgados, a companheira de Rupave assente calada. Não pode olhar no rosto da antiga nora quando a vê passar em direção à rede do marido. Sente um misto de humilhação, inveja e pena. Cerra a porta do quarto e não consegue dormir a noite toda, atormentada pelos gemidos regozijantes do velho jaguar que reencontrara, no final da vida, o prazer pela caça.

São necessários três meses desse novo ritual para que Caupé se encontre prenhe. De seu ventre, fecundado pela seiva do grande pai, floresce o descendente do morto Marangatu. Chamam-no Tupãberaba e sua chegada é anunciada por um estridente cantar de pássaros, aparentemente animados com o radiante céu que firma-se, ironicamente, sobre a tragédia.

Tupãberaba não foi criado como o restante da prole de Rupave. Seus privilégios brotam do ódio que Caupé carrega por submeter seu filho às regras estabelecidas pelo ex-sogro. Casara-se com Marangatu livre de tais obrigações. Agora angustia-se, procurando saídas para mudar o destino da criança. De seu charme e cheiro suave fez uso para convencer o amante de que Tupãberaba seria um ano e meio mais novo. Assim pôde adiar a data do castigo. Tantos partos seguidos naquela casa e a idade avançada do ancião ajudaram na sustentação da farsa.

O caçula da tribo tem olhos vermelhos, cabelos brancos grossos e pele esbranquiçada. Más línguas dizem que o menino lembra um pequeno macaco albino. É, porém, extremamente astuto e aprende com rapidez. Cantando, ajudando nas tarefas domésticas e pedindo conselhos procura agradar o velho pai. Seus irmãos invejam-no, mas optam por não entregar a verdadeira idade de Tupãberaba. Além da lealdade fraternal, sonham que ele liberte os demais da tirania instalada. Talvez repouse em suas pequenas mãos a salvação de toda aquela gente.

Num anoitecer qualquer, enquanto brinca no quarto, Tupãberaba escuta Rupave sussurrando com Sypave.

— Sypave, feições de homem têm se fixado nas formas juvenis de Tupãberaba. Não adianta a bela Caupé insistir na ladainha de que o garoto vive os seis anos de idade. É tempo de apresentá-lo a meu tacape.

— Rupave, meu marido, tens deixado a jovem Caupé assumir o controle de tuas ideias. De que adianta tu seres a cabeça, se ela é o pescoço que decide para onde vais olhar? Nenhum de nossos filhos teve os mimos dos quais esse mico branco goza.

— Tuas palavras foram embebidas no ciúme, mulher. Não sejas tão áspera com Caupé! Tu invejas sua beleza e os finais de semana que ela passa em nossa rede.

— Compreendo que eu não possa mais ser o jardim onde florescem tuas sementes, Rupave, mas não queria que tu te lambuzasses com ela em nossa rede…

— Pares de resmungar, velha esposa. Poupa-me de tuas lamúrias e vá apanhar meu tacape!

Desesperado, o pequeno Tupãberaba procura uma escapatória que modifique seu destino. Seus olhos ziguezagueiam, ligeiros, por todos os cantos da oca até estancarem na saída. É através dessa abertura rústica que ele avista o grande penhasco. Sua face ilumina-se.

Sorridente, o menino convoca o patriarca para correr com ele até o desfiladeiro. Carinhosamente trepa em suas costas largas e cobre a velha calva de beijos. Caupé olha para os dois e sorri esperança, desejando que o carcomido coração de Rupave amoleça. Rupave inveja a velocidade com que Tupãberaba pisa a relva verde. O pequeno risco vermelho dispara diante da íris cansada daquele homem velho que aleija os próprios filhos. Verde, vermelho. Verde, vermelho. Verde, vermelho. O Tupãberaba infantil rola na grama camuflando-se na pradaria. De repente, desaparece. Rupave estanca e coça a barba. Um gemido alto vindo lá de baixo faz com que corra até o limite do penhasco. Um frágil risco vermelho agoniza no solo.

— Pai, tu que me deste a vida, acode-me, por favor. Não posso mais sentir as pernas.

Os dias passam na cama para Tupãberaba. De lá, ele vigia a janela, as queixadas e o pai. Os irmãos solidários visitam-lhe o leito, mas alegram-se por dentro: “Tupãberaba achava que escaparia do castigo; agora, no lugar de uma perna, perdeu as duas”. Caupé culpa-se silenciosamente e morre em segredo. O destino havia perseguido sua pobre criança e a punido em dobro. Rupave sente-se aliviado. Prefere quando a natureza age como sua aliada.

Secretamente, Tupãberaba planeja fuga. Havia simulado o acidente para ganhar tempo. Em raras madrugadas, testa os pés em corridas pelas pradarias escurecidas, mas prefere não arriscar-se. Teme que as estrelas o denunciem. Aproveita-se da situação de vítima: anda de cavalinho nas costas dos irmãos pernetas, rouba nacos de carne do prato do pai e inferniza a velha Sypave com manhas e choradeiras. Só teme pela saúde da mãe. Sabe que ela suicida-se diariamente, angustiada pelo sofrimento do filho, e isso o impede de manter aquela farsa eternamente.

Numa noite sem lua, foge para parte alguma.

O que irritava Tupãberaba é que seu corpo insistia em não crescer. Já rodava pelo nada havia um extenso tempo. Tinha espalhado roças de mandioca pelas redondezas, tornado-se amigo dos bugios que enchiam o vazio da floresta de berros e procurado seus irmãos mais velhos entre os tapuy-ú. Calculava que haviam corrido cinco aniversários seus. Devia ter, então, dezesseis anos. Nenhum pelo cobria suas partes ou sua face. Nenhum centímetro seu corpo esticara ao longo de toda a viagem. Temia que a dieta pobre e as privações o tivessem retardado, mas não fazia sentido. Lembrava que os irmãos aleijados também não haviam progredido muito. Os esmagados logo ao nascer pareciam, todos, velhos anões — pequenos e impotentes. Os castigados depois dos sete anos eram gordos e flácidos, com traços femininos e pouca fibra a modelar os músculos. Marangatu fazia parte dessa leva e não conseguira implantar um filho sequer na jovem Caupé. Apreensivo, Tupãberaba pensou muito à beira de um rio, sozinho, em terras estrangeiras. Haveria de rodar incompleto por todo canto, caso não convencesse o centenário Rupave a libertar seus filhos. Sem muita convicção, seguiu mais de um ano em travessia que o levaria de volta para casa.

Era costume da gente de Rupave refletir olhando para o rio, mas o patriarca não fazia mais isso com medo de reconhecer sua velhice refletida nas águas. De volta à tribo, Tupãberaba passou bom tempo observando a família a distância, até que tivesse uma oportunidade de convencer o pai de que os filhos precisavam andar completos.

Estamos agora numa tarde tristemente temperada. Pressinto que o final do mito que narro se aproxima. Rupave, observado por Tupãberaba, lamenta-se de costas para o rio. Choraminga a morte de Caupé, falecida há um ano de saudades do filho. As lamúrias de Rupave machucam as forças de Tupãberaba. Achava que poderia viver próximo à mãe, mas descobre-se órfão. Entra nas águas e nada até o pai. O barulho do mergulho seco chama a atenção do velho carrasco que, distraidamente, olha para o rio. Alegra-se ao reconhecer seu rosto tão jovem no reflexo. “A boa Caupé deve estar orando por mim no paraíso: veja como minha face mantém-se rija com o passar do tempo”. A imagem de Tupãberaba sob as águas alimenta a vaidade patriarcal. Subitamente, o filho puxa a cabeça de Rupave em direção ao rio. Surpreendido, o homem deixa-se arrastar. Tupãberaba queria apenas vingar a mãe e os irmãos, afogando o algoz ancestral, mas se choca ao perceber que, naquele momento, pela primeira vez em sua história, abraça o velho pai. Os dois corpos de homem se entrelaçam e, num paternal movimento, misturam as gerações.

Nunca poderemos saber se pai aninhava filho ou se filho aninhava pai. Choravam tanto que suas lágrimas abundantes poderiam fazer o rio transbordar-se em mar.

O dia se acabava num céu amplo e alaranjado que aos poucos se apagava — escuro. Das águas lodacentas da tristeza, levantou-se o primeiro homem inteiro a enxergar aqueles tempos novos.

| uma primeira versão de “Ypy” foi publicada no livro Canções para ninar adultos (Editora Patuá, 2012) sob o título de “Gênesis”. |

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia, caipira punk, nascido e criado em Penápolis, sertão paulista. Seu romance de estreia Desamparo (Editora Reformatório, 2018) esteve finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2019. Quando dava aulas de jornalismo para jovens de periferia na Énois, coordenou e editou o Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP, finalista do Prêmio Jabuti 2017. Tem sido convidado para debater literatura e narrativas multimídia em eventos como a Primavera Literária Brasileira, em Paris, a Feira do Livro de Frankfurt e a Campus Party. Toca contrabaixo e rabisca versos na Bedibê.