o resto é mar, Anna Monteiro

Luísa chegou lá em casa num dia de temporal, com mala, sacola e um guarda-chuva pingando. Na hora em que a campainha soou, meu pai tocava piano. Ele sempre ensaiava às tardes, porque trabalhava em bares durante a madrugada. Bossa nova, dedos ágeis se alternando nas teclas brancas e pretas. A baía da Guanabara na janela.

Minha mãe tinha a mania de não levar a chave de casa e colava o dedo na campainha, e eu corri para abrir a porta, porque meu pai não largava o piano de jeito nenhum.

A menina diante de mim, de mãos dadas com a minha mãe, era a coisa mais linda que eu já tinha visto. Era minha prima e por causa de uma briga antiga entre a minha mãe e o pai dela, a gente nunca se conheceu. Tinha uns onze anos quando chegou lá em casa, era pequena, os braços fininhos, as pernas compridas e os cabelos em cachos. A chuva colou a camiseta em seu corpo e, assim que abri a porta, vi aqueles peitinhos que nasciam, os bicos duros se mostrando para mim. Foi só depois que percebi seus olhos um pouco inchados e um sorriso tímido. Eu a abracei apertado, depois peguei sua mão e disse, vem, vem conhecer a casa. Eu era um pouco maior que ela.

A mãe de Luísa tinha morrido. O pai dela, irmão da minha mãe, começou a beber violentamente, minha mãe dizia, ele cai bêbado por aí, a menina fica solta, não tem ninguém no mundo. E por isso Luísa foi morar conosco.

Eu a ajudava nas lições de casa, ensinava a jogar vôlei, levava para passeios de bicicleta.

De manhã cedo, na mesa do café, a vontade de abraçar Luísa vinha embalada pelo cheiro da pasta de dente, da colônia que ela usava, misturado ao leite e à manteiga passada no pão. Eu disfarçava, dava bom dia e comia em silêncio. Minha mãe lia o jornal, meu pai dormia, tinha chegado quase com o dia raiando. Luísa catava as migalhas da bisnaga com os dedos, os levava à boca e eu queria ser aqueles míseros pedacinhos de pão.

No ônibus para a escola, sacolejando pela rua cheia de buracos, a cabeça de Luísa balançava e caía nos meus ombros. Eu poderia estender meus braços e aconchegá-la, mergulhar meu nariz naqueles cachos, mas ficava imóvel, esperando o ponto para descermos.

Eu a espiava pela janela da minha sala de aula. A distração enquanto a professora enfileirava as orações, ou as equações, tanto faz. Os recreios eram separados, ela no sexto ano, eu no oitavo. Um tchau de longe quando ela me percebia através do basculante, o sorriso largo. A vontade danada de passar a língua naquelas pálpebras inchadas.

O começo da noite, a hora do jantar, as nossas séries preferidas. Eu num canto do sofá, Luísa no outro, os pés dela no meu colo, os meus no dela. Eu comprimia aqueles dedinhos compridos, a palma, ai, isso é tão bom, faz mais, e eu fazia, e ela sempre pedia mais, e eu fazia. E a gente poderia ficar assim a vida toda, seria bom se um meteoro atingisse a Terra naquele tempo, a onda que se formaria e que engoliria as montanhas, o parque, árvores, pedras, edifícios, carros, engoliria a gente e pronto, o pó, a poeira, o nada.

Luísa dormia no quarto ao lado do meu, o que deixava minha imaginação sair pela porta fechada, se esgueirar pelo corredor, atravessar a porta dela e então eu a via encolhida na cama. A camisola de alça fina, os cabelos espalhados no travesseiro. E de longe, da minha cama, me enfiava ao seu lado debaixo do lençol, alisava suas costas com ossinhos salientes, os quadris, os peitos, maiores à medida que o tempo passava e que agora cabiam perfeitamente nas minhas mãos. Roçava seu pescoço e sua nuca, e descia até as pernas e ia por esse caminho afora. No dia seguinte olhava Luísa na mesa do café, o leite quente, a manteiga no pão, os olhos inchados de sono, minha mãe lendo o jornal. E aqueles desejos todos me assaltavam outra vez. Luísa com um botão aberto. As migalhas. O silêncio.

E a gente foi crescendo, o corpo de Luísa foi mudando, ganhando volume, curvas, coxas. As coisas, essas mudavam pouco. Fazia sol, uns dias chovia. Eu gostava de ver a chuva bater na vidraça e daquele barulhinho de pingos caindo em cima de aparelhos de ar condicionado. A baía da Guanabara às vezes cinza, às vezes azul, às vezes até dourada.

Eu no segundo ano do ensino médio, Luísa, no oitavo. Os horários não coincidiam mais. Solidão ganhando as ruas dentro do ônibus que ainda sacolejava.

Então, num entardecer, naquela época em que as minhas fantasias andavam se esgueirando com mais frequência pelo corredor até o quarto de Luísa, ela me chamou. Eu fui. A veneziana entreaberta. Em algum lugar lá fora tinha uma lua.

Luísa tinha bebido um pouco, senti o hálito. Tudo bem, eu também bebia. E fumava às vezes. Sentei aos pés da cama. O piano do meu pai ao fundo. Fundamental é mesmo o amor. Os dedos ágeis. As teclas brancas e pretas.

Ela segurou meu pé e apertou, puxou os dedos. Aquela sensação boa tão conhecida. Comprimi os pés dela também com as duas mãos. Ela me olhou como se me atravessasse a pele, os músculos, espiasse os meus órgãos, esmagasse meu estômago. Aquelas duas bolas brilhando, as pálpebras de sempre, com a dobrinha. As mãos dela foram avançando pelas minhas pernas num roteiro que eu imaginei tantas vezes e que me fez fechar os olhos e perguntar você sempre soube que eu te amava, né?

Ela disse humhum, soube, desde o dia em que você abriu a porta para mim.

As mãos de Luísa seguiam sem obstáculos, sem meteoros. Leves, traziam arrepios que eu não imaginava que existissem. Eu cheguei perto dela, nariz com nariz, todas as sardas do mundo, a quentura da respiração. Ela abriu a boca, lambeu meus lábios.

Luísa ficou em cima de mim, desabotoou minha camisa.

Abriu meu sutiã, sugou meu peito, que era pequeno como o dela. Colocou a mão entre as minhas pernas, afastou minha calcinha e sentiu que eu estava toda molhada.

O piano do meu pai. O resto é mar.

Anna Monteiro nasceu no Rio de Janeiro, em 1967. Cursou jornalismo na Escola de Comunicação da URFJ e trabalha com comunicação e saúde, no Terceiro Setor. É autora de Granulações, da Editora Reformatório, publicado em 2018, seu romance de estreia, que conta a história de Pedro e Nina, um casal em crise depois de viver uma grande paixão. A narrativa alterna as vozes de seus protagonistas e a intimidade revela, pela visão de cada um, traços do outro capazes de complicar uma relação. E aquele amor simples, certeiro e apaixonado, torna-se tão complexo que aos poucos caminha rumo a uma impossibilidade. Acontece o que pode vir num relacionamento: a falta de comunicação que leva ao afastamento e à falta de intimidade. Em 2015, participou da coletânea de contos 14 novos autores brasileiros, organizado por Adriana Lisboa e publicado em e-book pela Editora Mombak. Uma paixão antiga são os cachorros. E aí entra na história o Bart, o daschund da autora que viveu quase 14 anos, que a inspirou a criar, em 2009, Bartiannas, o blog do Bart e da Anna, onde publica alguns textos.