táxi, de Myriam Campello

Sem desmerecer: se a senhora não está bem imagina eu, casado há cinco anos com mulher que mal vejo, li numa revista que após três anos há sempre uma sacudidela, casamento e torradeira falham, parece que não gostam de sossego

Não sei como se desenrola sua vida (é resfriado não? Ou dengue chicungunha mosquito faz estrago tá com febre?)

dois filhos pequenos

apaixonado

sei que cada um é cada qual, o que chove cá não chove lá e sou mais velho. A senhora acha que idade diferente pesa?

Repentino

a amizade dela com a vizinha da frente. Até gostei, sabe, às vezes chego tarde, achei bom que tivesse companhia

Quando voltei nem sinal de janta no fogão. Meia hora depois chegou nervosa e aprontou a comida em três minutos, puta dona de casa desculpe a expressão, não posso me queixar

A vizinha é até uma moça legal. Mas daí a largar tudo pra ficar de conversa, a casa revirada assim não é possível, ontem eu é que dei banho nas crianças

por que não?

botei na casa tudo que uma mulher pode querer churrasqueira piscininha as crianças se esbaldam Net pros filmes românticos, levo todo domingo no pagode (agora menos já que não faz questão, prefere ficar quieta e navegar no seu mundo — me trancando de fora)

atazanado

até queria a sua opinião

atormentado

Meu irmão fala que casamento desafina sozinho nem precisa ninguém, a coisa sai dos eixos perde o tom, ele toca na banda e entende de instrumentos, é assim mesmo, cara, não encana, dá um trato nela, faz vontades, não trabalha tanto e volta tudo ao normal. Venho fazendo isso há quatro meses, não mudou foi nada!

perdido

como é que pode essa transformação?

Não me trata mal mas distante, fechada em si nenhuma fresta. Olhar fixo sempre em outra coisa que está longe. Perguntei se deparava com fantasma: seu sorriso me cortou ao meio a tal ponto me pareceu disperso. Sorriu não para mim mas abraçando o que anda dentro dela

Cabeça de mulher a gente não entende, o problema de pedir opinião a homem é que ele vem com uma linha de montagem de patifarias, que é só no que pensam

Medo dos postes sim já que pouco durmo, então tome de café e coca-cola, a cada três horas à noite uma eu capoto, levanto como um vampiro enxovalhado, sem repouso nenhum
Sou mais velho quinze anos, ela costumava achar isso um tesão e fazia por onde. Fomos felizes até a gente se mudar para cá, “cuidado quando a casa ficar pronta” é um ditado chinês, será que tinta fresca atrai o que não deve? Seja lá o que for chinês é bicho sábio

Eu perguntei!
Que eu estava imaginando coisas: só cansada casa crianças muitos afazeres.
Eu é que sei.

Quis passar uns dias na casa da mãe, dei o dinheiro achando que podia melhorar. Voltou de Colatina mais enfiada nos próprios pensamentos. Quando pressinto que vai despejar revelação me afasto pra não ouvir, a coragem sobe e desce ribanceira de segunda a segunda. Terça quero saber mas na quarta deixo a noite me engolir, brinco com as crianças janto e pronto, hora da cama. Mesmo ruim a rotina está ali de sentinela reforçando os dias, a gente afunda nessa massa parda e vai vivendo, ninguém presta atenção o tempo todo. De longe tudo parece como antes. Deslizo junto com a vida mas sei que nada é o mesmo.

No outro dia me ligou que a vizinha tinha adoecido e precisava dela, ia ficar por lá naquela noite. Melhor passar mesmo mais tempo com a vizinha que sumir de vez, sei que não tem amigas, sente falta. E a senhora o que que está achando?

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da Noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e Outros Frutos (contos, 1996), Como Esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema, Jogo de Damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017), finalista do Premio Rio de Literatura em 2018.