cinco poemas de Maira Garcia

capa_luadeontemSe eu gosto de um poema
leio de todo jeito,
frente e verso,
com
respeito e despeito.
De baixo pra cima,
de cima pra baixo.
Leitura corrida,
escorrida,
lenta, dormida,
ao contrário.
Se eu gosto de um poema,
leio, monto, desmonto,
caio, levanto.
Esvazio e me farto.
Me alimento,
me perco nele,
e encontro um pretexto
para sair do mesmo lugar,
ir embora agora,
e na mesma hora voltar.

* * *

Para cada verso que escrevo,
é uma noite a menos.

Há muito que não durmo.
Tenho olhos de sono,
semiabertos
descobertos.

Eu sei que a vida
é sonho desperto.

* * *

a reforma

Um tanque de água transbordando
molhava os pés em todo canto.
Enxugando com um pano
as pegadas deram pistas
que um ladrilho florescia no jardim.

* * *

É noite.
Cida coloca o sofá na frente da janela,
apaga a luz da sala
e assiste a cidade.

* * *

Menino acha que é dono da rua.
Deixa a mãe em desassossego
Empinando a lua.

Puxa um fio
Sem cortante
Desvia das estrelas com barbante

Descansa na calçada.

Mas a mãe grita:
“Já pra casa!”

| poemas do livro Depois da lua de ontem (Editora Patuá, 2019). |

Maira Garcia é formada em Propaganda pela ECA-USP e descortina versos e versadores como mediadora da Roda de Poesia do Centro de Arte e Promoção Social do Grajaú. Redatora, cantora e compositora, depois dos 40 se assumiu poeta para–sempre-além. Depois da lua de ontem ela se transfigura também em loba, astronauta e alienígena.