asas de anjo, de Andri Carvão

Sentado à beira do abismo balanço meus
pés no vazio, enquanto contemplo a erupção:
nuvem de fumaça, cheiro de enxofre,
chuva de pedras — um banho de sangue.

O lobo uivou, ganiu, ladrou pra lua.
E a lua revidou com seu silêncio. E o
silêncio invadiu a terra e a libertou tomando
conta de tudo. O brilho da lua, o branco
da lua, o globo ocular lunar. O lobo
com o rabo entre as pernas, abaixou
a cabeça até encostar o focinho no chão
de terra e recuou a passos curtos,
lentos e medrosos. A lua fulminou com fogo
toda a floresta. As labaredas lamberam
o paraíso terrestre como serpentes.
O lobo cercado pelas chamas arreganhou
os dentes, sua arma de defesa. Mas
sua boca não tinha mais dentes. A boca
banguela, uma caverna. A menina
adentrou a boca da gruta. Vestia vermelho.
Resistia ao vento que varria toda a cercania
há dias e dias e dias, desde o início
dos tempos. Tapando o rosto com seu
capuz. Segurando-o para se proteger do frio
cortante. Inclinada para frente, sôfrega,
opressa, lutava contra o mau tempo.
Tateando árvores retorcidas como velhas
enrugadas. Seguindo o curso do rio rubro
de sangue, vermelho lava. Rio subterrâneo,
tão doce como o mel da única maçã,
a última maçã presente pendendo
num galho seco. Brilhando como se
lustrada pelo véu das nuvens. A menina
de face corada, bochechas coradas,
açoitadas pelo vento, a menina
de maçãs coradas destaca
a fruta, a última fruta, o fruto primordial.
Morde. Então vê um bicho na maçã.
E a maçã cresce em sua mão de forma
que precisa segurá-la com ambas as mãos.
Até que não suporta mais seu peso
e a deposita no chão, maior do
que uma abóbora. E de dentro
da maçã-abóbora serpenteia uma cobra
numa dança hipnótica, insinuante,
quase indecente. Silvando sua língua
bífida com duas bolas de gelo nos olhos,
o réptil paralisa sua vítima e, ao invés
de cravar suas presas, lança um jato verde
encharcando a menina Lilith. O líquido
age de imediato, volvendo, revolvendo,
contorcendo todas as articulações da menina
de vermelho. Ela tomba de joelhos
e seus olhos brancos derramam lágrimas
de medo, de furor, lágrimas de inverno.
Sua cabeça de coruja aponta para os céus
num grito mudo e de suas costelas,
da espinha dorsal, brotam duas asas,
que a içam do chão balançando-a como a
uma marionete, até precipitá-la no abismo.
E assim ela expele, dá à luz ao fruto do futuro:
um anjo, um demônio, um monstro, seu algoz,
num deserto sem raízes nem brotos.

E aqui estou, sentado à beira do abismo,
balançando os meus pés no infinito.

Andri Carvão tem publicações tem diversas revistas digitais, publicou Um Sol para cada montanha (Chiado Books). Poemas do Golpe a sair pela Editora Patuá.