notas esparsas para um mundo áspero, poema de Leonardo Tonus

xxx
minha escrita não tolera,
ela acolhe.

tolerância não é direito,
é favor concedido num tempo
e num espaço
pré-definidos.

eu não vivo de favores,
nem tampouco minha poesia.

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meu único consolo é saber
que antes do fogo furtado
já havia a poesia :
intelecção de mundo que sedimenta
o meu traimento,
ao mundo

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como pensar quem somos
se do outro — que também somos —
esquecemos o desafio.

xxx
para além do visível
aspirar ao sujeito
potencialmente
audível.

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entre cães e lobos uivam tuas dúvidas,
até o amigo te sorrir,
a manhã.

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à beira dos abismos
se levanta a primeira palavra
do meu verso.
a mesma e única
que se faz grito
a cada novo dia.

xxx
que não me vejam até apagar os vestígios
da linha da melodia quando em ti estou,
quando em ti apenas sou
uma vaga ideia de mundo.

xxx
desejar para nada possuir.
em conjunto construir a força contínua
do que nos deseja todas as manhãs.

xxx
não se pode aceitar o silenciamento de alguém,
nem tampouco a espessura do medo.

cultivar a subversiva anarquia da felicidade,
é o que nos resta.

as palavras não são minhas,
somente esta triste
e profunda
alegria.

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ser coerente
com o que se diz,
com o que se escreve :
aporias das inseguras zonas
de minha escrita.

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não te esqueças :
literatura não é aspirina,
não consola
nem apazigua.

xxx
só me pergunto para onde ir
quando o mundo de nós
se cansar.

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de ponta cabeça o mundo virar
até a chuva parar de cair
até às nuvens ela subir
até ela cocegar o teu nariz

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rasguei todos os guias ao teu corpo
por saber que o sol já não cabe em lugar algum
nem o perfume da transparência de teus olhos

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somos todos
e ninguém
ao mesmo tempo

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a transgressão não parte do deslocamento em si,
mas do ímpeto de promover intervenções,
do mundo figurar
no mundo transfigurar
o mundo.

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fazer corpo com o silêncio das cores,
o azul profundo dos girassóis de Van Gogh,
fora de qualquer dimensão,
sob o bombardeio de Hiroshima

xxx
quando a história reescreverem,
não se esqueçam de contar o gosto
das cinzas trituradas
entre os dentes.

Agosto de 2019

Leonardo Tonus é professor Livre Docente em literatura brasileira no Departamento de Estudos Lusófonos na Sorbonne Université (França). Membro do Conselho Editorial e do Comitê de Redação de diversas revistas internacionais, atua nas áreas de literatura brasileira contemporânea, teoria literária e literatura comparada com pesquisa sobre imigração. Em 2014 foi condecorado pelo Ministério de Educação francês Chevalier das Palmas Acadêmicas e, em 2015, Chevalier das Artes e das Letras pelo Ministério da Cultura francês. Foi Curador do Salon du Livre de Paris de 2015 que teve o Brasil como país homenageado e, em 2016, da exposição Oswald de Andrade: passeur anthropophage no Centre Georges Pompidou (França). É o idealizador e organizador desde 2014 do festival literário internacional Printemps Littéraire Brésilien. Participou da Delegação Oficial brasileira no Salão do Livro de Göteburg (Suécia) em 2014 e 2016 e atuou como moderador de diversos eventos literários internacionais (Flip, 2017; Salon du Livre de Paris, entre 2012 e 2018, Salão do Livro de Göteburg, 2014 e 2016). Publicou artigos acadêmicos sobre autores brasileiros contemporâneos e coordenou a publicação, entre outros, dos ensaios inéditos do escritor Samuel Rawet (Samuel Rawet: ensaios reunidos, 2008), do número 41 da Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, da edição especial da Revista Ibéric@l, em torno da nova cena literária no Brasil e das antologias La littérature brésilienne contemporaine — spécial Salon du Livre de Paris 2015 (Revista Pessoa, 2015), Olhar Paris (Editora Nós, 2016), Escrever Berlim (Editora Nós, 2017) e Min al mahjar ila al watan (Da Terra de Migração Para a Terra Natal (Revista Pessoa/Editora Mombak; Abu Dhabi Departement of Culture and Tourism/Kalima, 2019). Em 2018 lançou sua primeira coletânea de poesias intitulada Agora Vai Ser Assim (Editora Nós, 2018) e vários de seus poemas já tiveram publicação em antologias e revistas nacionais (A resistência dos vaga-lumes, 2019; Em tempos de pós-democracia, 2019; O que resta das coisas, 2018 — finalista do Prêmio Ages 2019) e internacionais (Aosnovoiorquinos, New York, 2019). Em outubro de 2019 será lançada sua segunda antologia de poemas pela Editora Nós.

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