círculo de influência, de Franklin Carvalho

No último sábado fui a Santa Lúcia e encontrei-me com Nadir, a feiticeira, num bar de praia da vila. Bebemos muito. Nadir, apesar de já ter passado dos cinquenta anos e ser muito magra, ou talvez por isso, soltou-se quase desmantelada dançando o reggae que tocavam no boteco, e me arrastou para suar naquele frêmito, nós dois com as cabeças quase enfiadas nas caixas de som. Havia quadros de Bob Marley e do rei Selassie pendurados na parede e uma turma de rapazes nos cercou, mexendo seus corpos rentes aos nossos. Abraçávamo-nos como se estivéssemos em nossas próprias casas e no ambiente cheio ninguém estranhava aquele excesso.

Os rapazotes aproximavam-se cada vez mais e o suor parecia uma cola, um mel que nos juntava. De vez em quando pedíamos, ou eles pediam, uma bebida de cravo, limão e outras ervas e os copos passavam por todos. Nadir, que quase nunca esquece de fechar e acender seus cigarros, bastava-se com o ar que invadia o ambiente, impregnado de charutos e outros fumos. Lambuzávamo-nos naquilo, naqueles cabelos embaraçados e bijuterias de metal e óleos perfumados dos nossos parceiros, e eu me perguntava o que fazia naquele fim de mundo, com minha amiga que pretendia me ensinar alguma bruxaria sem ter nada que eu já não soubesse. Mas eu estava gostando e, se ninguém nos tivesse salvado, ficaríamos ali a noite toda.

Quem nos resgatou, afinal, foram três jovens afeminados e uma loira metida em traje masculinos, madura ao ponto de parecer a mãe dos outros. Eles tentavam nos olhar discretamente, encostados na parede próxima à saída, porém riam do nosso desafogo. Intuitivamente, como se tivesse sido convocada, Nadir foi dançando até eles de olhos fechados, voltou com um copo de cerveja que lhe deram, deixou que eu bebesse um pouco e me puxou para fora da roda de dança. Caminhamos até o grupo, eu ainda tonto, e os quatro se apresentaram sorrindo, também eufóricos. Minha amiga sussurrou ao meu ouvido:

— Tenha calma, vamos mudar de programa.

Os rapazes que dançavam agarrados conosco pareciam nem ter notado a nossa saída, e continuaram se balançando, às vezes repetindo bordões que simulavam os refrões em inglês do reggae. Havia algo cada vez mais furioso na forma como eles se deixavam cair uns por cima dos outros, e só notamos aquela violência porque tínhamos saído do miolo da bagunça. Já na turma da loira, Ari, um dos novos amigos, puxou conversa. Ele havia saído de Santa Lúcia havia alguns anos para estudar na capital. Voltara para visitar os parentes.

— Você é o Roberto Desnos, não? Ontem eu vi umas fotos suas n’O Momento. Coisa de dez anos atrás. O jornal estava no guarda-roupas de minha família.

— Uma luz guardada numa gaveta? Por isso tenho me sentido noturno.

Falamos mais sobre jornais antigos e a imprensa do país. Dali a pouco Alexandre e Dão, que tinham vindo da capital acompanhando Ari, irromperam com comentários sarcásticos a respeito de tudo que dizíamos. Estouramos em gargalhadas e a noite toda foi assim, aquela vontade desatada de rirmos e os motivos aparecendo. Brincamos um tempo, paquerando quem passava por perto, destilando hálitos fortíssimos, e Nadir quase não parava de conversar com Cléria, a loira. As duas, aliás, ordenavam a bebida que nos era servida, e eu já não sabia quem pagaria as doses de aguardente que circulavam em poucos copos comuns para toda a turma.

Cléria, que tinha o rosto arredondado de lua, carregava uma bolsa de onde tirava cigarros para acompanhar cada trago de bebida. Nadir a seguia enrolando o tabaco que tirava de um saco plástico escondido no sutiã, e que jurava ser mais saudável do que o industrializado de papel com filtro. As duas falavam mexendo todo o corpo, como se marcassem uma a movimentação da outra e tivessem treinado alguma coreografia desde crianças. Ari, negro e magro, tinha voz suave e era muito doce. Já Alexandre fingia ser mais compenetrado, era forte, mas não muito alto. Ressaía-lhe a pele morena e o peito estufado desenhado por uma camiseta justa. Dão, que na verdade se chamava Damião, ficava pedindo a toda hora que alguém lhe aplicasse um soul na veia. Ele parecia um espírito, com aparência mutável, escondida por trás de grandes cabelos e roupas folgadas, mas afinal magro e musculoso.

— Preciso de soul — gritava ele, e mexia os seus trinta e poucos anos dançando o reggae como se fosse a música da Motown. A pele negra do rosto já tinha rugas, e elas se destacavam quando Dão gargalhava. Ele havia descoberto a sua função no meio daquela bagunça, queria mesmo dançar, e acabou nos arrastando para seu carro, um Opala de vermelho sem brilho, a nave que parecia de sonho.

Já eram quase três horas da madrugada mas nós insistimos em correr outros bares de Santa Lúcia e abusar da paciência dos proprietários sonolentos. Mesmo os que nos atendiam amigavelmente fechavam as portas assim que nos percebiam gente comum, sem propensões para grandes gastos. Arrumamos bebida e seguimos, ouvindo baladas no mais alto volume, até uma praia mais distante, totalmente deserta. Começava a clarear quando o carro parou em frente a uma casa isolada e ali, pelo ambiente parecer tão estranho, estávamos quase sóbrios novamente.

Descemos e entramos. O imóvel de alvenaria caiada era rústico, e no seu interior a mobília já muito usada, como se estivesse em sua terceira ou quarta morada. A casa tinha o telhado também antigo e os cômodos minúsculos, com dois ou três quartos. No entanto, estava limpa, dando a impressão de que alguém, um caseiro, tivesse preparado tudo para receber visitas.

— Até que enfim! — Ari gritou. — Tem uma semana que a gente fala em vir para Praia da Guia e eu não conseguia tirar esse povo de Santa Lúcia. Esse Dão quase casa com a criadagem. Você acredita que inventou até lavar o tanque da casa de minha mãe só para namorar lá dentro?

— E a mãe de Ari ficou encantada — Damião respondeu. — “Nossa, não precisa, como vocês são gentis”. Agora, a família vai beber água batizada.

Até Nadir e Cléria, que estavam sonolentas, riram daquele disparate. Os rapazes então me contaram que voltariam para a capital na terça-feira.

— É proibido dormir! Todos para a praia — Damião convocou.

Enquanto Ari procurava bermudas para nos emprestar, Nadir e Cléria se trancaram no quarto e não saíram mais de lá. Eu e os três rapazes caminhamos até a areia branca e nos jogamos nas cadeiras de madeira de uma barraca que acabava de abrir. O dono, um velho gordo que parecia morar naquela construção improvisada, nos atendeu como se fôssemos os únicos clientes de quinhentos anos para o passado e para o futuro.

Reiniciamos a bebedeira e comemos todo tipo de caldos, moluscos, cocos e pequenos peixes que pudessem nos ressuscitar. Damião e Alexandre foram caminhar na praia que já recebia alguns pescadores e nativos, e Ari começou a falar do jogo do tabuleiro ouija.

A descrição era de algo que eu conhecia como a brincadeira do copo. Segundo haviam me contado, as pessoas põem as letras do alfabeto em círculo numa mesa, invocam uma entidade, colocam o indicador sobre um copo no centro, fazem perguntas e o copo começa a deslizar de letra a letra para formar respostas. Na ouija, Ari me disse, não se usa o copo, mas um ponteiro de madeira.

— Lá na capital, a gente tinha mania de jogar. Parece que na cidade grande ficamos mais entediados do que aqui, e precisamos inventar o que fazer. Nosso grupo se reunia na casa da mãe do Alexandre e ficava quase a noite toda perguntando aos espíritos. Havia sempre duas entidades que respondiam. Uma era o Gaspar, que tinha sido um velho que bebia muito, e não era boa alma. O outro era o Carlo, um seminarista italiano que tinha vindo para o país havia uns vinte anos, andava de motocicleta e, uma noite, sofreu um acidente de moto e morreu. O Carlo gostava muito de mim, e o Gaspar odiava o Carlo. O grupo todo percebia uma tensão entre os dois. Houve uma vez em que um jarro voou no meio do jogo e veio na minha direção, só não me acertou porque me atirei no chão a tempo. Até a mãe do Alexandre, que estava do lado de fora da casa, ouviu o barulho.

— E aí?

— Aí, a gente rezava, pedia paz, se concentrava e terminava o jogo. Mas nos dias seguintes continuava, nunca parou. Outra vez, a última vez em que eu estava e os dois apareceram, o Gaspar disse que num dia tal…. No dia trinta de maio, às oito horas da noite, eu iria ser atropelado e morrer. Todo mundo ficou muito assustado com aquilo e logo a gente parou, guardou o material e ficou sem saber o que dizer.

— E você? Ficou preocupado?

— Claro! Eu comecei a ter medo mesmo, mas não entendia, porque eu nunca havia andado de moto, nem nenhum amigo meu tinha moto. Só sei que o tempo foi passando, passando, até que no dia trinta de maio, exatamente, uma colega me chamou para ir ao cinema. Interessante que justamente naquele dia eu tinha esquecido de tudo.

— Você foi com ela?

— Eu não queria ver o filme. Não sei porque, eu fiquei sem vontade. Mas eu tinha marcado com ela e resolvi que ia ao cinema só para me desculpar. Ia chegar umas sete horas, me explicar e ir embora. Sei que eu fui me atrasando, me atrasando, me atrasando e apareci na porta do cinema quase às oito. Então veio tudo na minha cabeça. Eu fiquei paralisado e, por incrível que pareça, minha amiga também tinha se atrasado e me encontrou ali, em estado de choque. Era a Cléria, essa que veio com a gente para Santa Lúcia. A Cléria me chamou para ir para a casa de Alexandre e quando a gente ia atravessando a rua, lá no começo da rua vinha uma moto a toda velocidade, eu juro. Juro que ela passou rente à minha frente, eu fiquei gelado.

— A Cléria estava contigo?

— Sim, a Cléria. A gente saiu correndo e quando chegou à casa do Alexandre, o pessoal todo estava jogando. Você acredita que eles se lembraram do aviso do Gaspar?

— E o que eles estavam lendo na Ouija?

— Nada. Eles disseram que estavam orando por mim, chamando o Carlo e o Gaspar, mas nada acontecia. Nessa hora eu me sentei, e o ponteiro começou a marcar as letras. Elas não formavam palavra nenhuma, nenhuma mesmo, mas víamos a sombra de um nome sobre o tabuleiro.

— Que nome?

— O nome de Carlo. Até hoje eu acho que aquela moto era dele. Era ele quem estava por perto para ninguém encostar em mim. Daí a mãe do Alexandre, que simpatizava muito comigo, chamou a gente para orar e nunca mais a gente jogou.

— Mas você tem vontade, não?

De repente, Nadir chegou com Cléria, brincando, e a minha conversa com Ari parecia não fazer mais sentido naquele sol matinal. As mulheres se sentaram e logo Damião e Alexandre apareceram rindo e gritando, falando das brincadeiras com os nativos, carregando uma enorme corda de caranguejos que tinham comprado por trocados, e que ninguém sabia como preparar. Ficamos naquela farra, tomamos banho de mar, comemos os caranguejos que o dono da barraca cozinhou e bebemos até o fim da tarde. Depois do pôr do sol, voltamos para a casa da praia, para um banho de água doce com água tirada de um poço.

A noite mostrou como poderia ser escura sem luz elétrica, marcada somente por dois lampiões que foram acesos com os isqueiros das fumantes. Nadir sumiu novamente com Cléria, e eu e Alexandre apagamos no sofá da sala. Ari e Dão começaram a cozinhar e tomaram o estoque de bebida da casa até dormirem, também na sala, num tapete de lã.

Ainda devia ser dez da noite e a casa já estava totalmente silenciosa quando eu acordei e fiquei olhando o mato no quintal, com um cigarro de Cléria na mão. Tinha uma sensação boa, de estar com as pessoas certas e de ser amado por elas. Logo uma chuva de pingos grossos começou a atravessar o silêncio, e eu entrei e voltei a dormir, novamente partilhando o sofá com Alexandre.

Franklin Carvalho é jornalista e autor dos livros de contos Câmara e Cadeia (2004) e O Encourado (2009). Em 2016, o seu romance Céus e Terra venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Serviço Social do Comércio (Sesc), e em 2017, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante com mais de 40 anos. O autor participou da comitiva brasileira na Primavera Literária Brasileira e no Salão do Livro de Paris (2016), eventos realizados na capital francesa, e foi palestrante também na Feira do Livro de Guadalajara (México — 2017), na Festa Literária de Paraty 2018 e em outros eventos literários. Tem contos publicados na Revista Gueto e na Ruído Manifesto.