cinco poemas de Lourença Lou

à espreita

nada em mim é pouco
nada chega devagar
nada segreda silêncios
em tudo sou vontade
devoradora de todos os sossegos
o que me devassa as noites
é o que sangra os ouvidos
é o que infinda os sentidos
:
ao longe um lobo uiva.

ancestral

aguentar
meus poemas batidos
a pregmo e fogo

minhas obras cunhadas
em moedas falsas

meus traços riscados
em tinta d’água

fica mais fácil
quando a poesia
me pega pela palavra

e me mostra o reflexo
do que corre em minhas veias.

à janela do quarto de dormir

devorando vazios
esqueço-me
numa espera inexistente

lá fora
a madrugada geme
a solidão da rua

nada há
além do silêncio
que se instalou na memória

alguns dias
não foram feitos para nascer.

fragilidades do outono

eu andava pelas ruas esquecida dos pés
a fome abria em mim suas bocas sem-fim
querendo o que o amor jamais preencheria

eu andava comida e bebida nas entranhas
dia após dia sentindo sem ver
a música despudorada do idílio das rolinhas

eu andava sangrando sangrando carências
que disfarçava em crenças duras e retumbantes
até tropeçar na exuberância de setembro

então me enxerguei
:
tinha a lírica que calaria todas as bocas
um jardim de miragens para driblar inseguranças

mas não sabia plantar primavera em minhas fomes.

movimento vital

manchar a página
com o sangue das palavras
que nascem nuas

rasgar o peito
como pelicano
a alimentar rebentos

depois
aspirar profundamente
o que sobra de vida
:
escrever é um ato de rebeldia

| poemas do livro Equilibrista (Editora Penalux, 2016). |

Lourença Lou às vezes é prosa, outras poesia, sempre encantada com quem faz literatura. Formada em Letras pela UFMG, pós-graduada em administração escolar, continua sendo aprendiz de viver. Faz parte de várias coletâneas de poesia, crônicas e contos, e várias vezes foi publicada no Livro da Tribo. Pela Editora Penalux publicou Equilibrista (2016), Pontiaguda (2017), Náufraga (2018), todos de poesia. Ainda este ano publicará O lado oculto do amor e outros contos.