quatro poemas do livro ‘Erotiscências & embustes’, de Jozias Benedicto

67162232_1199205776926392_319728562493980672_oO lançamento é neste domingo, 4 de agosto, na Casa Quintal de Artes Cênicas, no Rio de Janeiro. Mais informações [link]

autorretrato 3 por 4

(adolescentepoema
quatro versos
sem rima
nem métrica

um retrato
trêsporquatro
adolescentes
embustes

um caderno
poemas datilografados em noites insones
depois anos e anos e anos até
o fogo:)

_______________olho esquerdo inquisidor
_______________o direito, acolhedor
_______________orelhudo, surdo, mudo
_______________ante a vida ante tudo

(um pequeno poema queimado para sempre em um incêndio
e recuperado no meio das trevas de um sonho:
o sonho dos monstros produz
razão)

uma fábula

Era uma vez.

Tive um analista
que repetia
e repetia
repetia:
“Por que as pessoas só querem plantar arroz
em terreno onde não nasce arroz?”

Penso em minha vida e vejo isso,
sempre isso:
arroz
em terreno
onde não
nasce
arroz.

Mas afinal estou vivo, com arroz ou sem arroz.

E ele, o analista,
já morreu há muito tempo,
já não deve mais nem ter carne nem pele nem ossos no caixão dele,
muito menos
arroz.

erotiscências VII (impenetrabilidades)

Penso em: vencer o tempo.
E o espaço.
A distância,
reduzi-la a zero.
Aquela lei da física — é a primeira ou a segunda lei daquele tal de newton? —,
dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço,
para mim, para nós, é pura bobagem.
Podemos sim, ser um,
um universo infinito.
Digo estas coisas de forma meio
atabalhoada
confusa
olhos úmidos
(bêbado).

Você apenas
sorri.

Talvez, talvez,
talvez seja possível, um dia,
esta impossibilidade.

Também sorrio, e mudo de assunto.

Chove.

valongo II (barco de refugiados)

As portas e os mares já estão fechados
com lutas insanas. Trilhas de sangue
no mapa-múndi dos refugiados
escrito em dor que só a morte extingue.

Por que foges assim, barco ligeiro?
O peso que carregas é tamanho,
se naufragas, já não és o primeiro
a levar pro fundo tua carga humana:

homens, mulheres, crianças — fugindo
da guerra, da morte, a paz buscando
no exílio; mas num barco submergindo

no frio mar; a foice veio célere
ceifar quem nada vale, existindo:
uma praia coberta de cadáveres.

| poemas do livro Erotiscências & embustes (Editora Urutau, 2019). |

Jozias Benedicto é escritor e artista visual nascido em São Luís, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Pós-graduado em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo pela PUC-RJ. Publicou os livros de contos Estranhas criaturas noturnas (2013, finalista do Prêmio Sesc de Literatura) e Como não aprender a nadar (2016, Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura). Em 2018 recebeu premiações pelos livros de contos ainda inéditos Um livro quase vermelho (Fundação Cultural do Pará) e Aqui até o céu escreve ficção (Governo do Estado do Maranhão). Teve contos publicados nas antologias Sábado na Estação (2012, organizada por Luiz Ruffato) e Contágios (2016, organizada por José Castello). Em artes visuais, entre outras mostras, participou da XVI Bienal de São Paulo. Erotiscências & embustes é seu primeiro livro de poesia.