quatro poemas de Artur Gomes

capa_patriaindigesta

ê fome negra incessante
febre voraz gigante
ê terra de tanta cruz

onde se deu primeira missa
índio rima com carniça
no pasto pros urubus

oh! myBrazyl
ainda em alto mar
Cabral quando te viu
foi logo gritando:
terra à vista!
e de bandeja te entregando
pra união democrática ruralista.

por aqui nem só beleza
nesses dias de paupéria
nação de tanta riqueza
país de tanta miséria

moenda

usina
mói a cana
o caldo e o bagaço

usina
mói o braço
a carne o osso

usina
mói o sangue
a fruta e o caroço

tritura suga torce
dos pés até o pescoço
e do alto da casa grande
os donos do engenho controlam

:
o saldo e o lucro

olho de lince

onde engendro
a Sagarana

invento
a Sagaranagem

entre a vertigem
e a voragem

na palavra
de origem

entre a língua
e a miragem
São Bernardo e Diadema

mordendo: o vírus da linguagem
no olho de lince do poema

poética 93

Tenho nojo do Agro
Negócio que me dá asco
por tanta perversidade

quem planta veneno
é carrasco
assassino da humanidade

| do livro Pátria A(r)mada (Editora Desconcertos, 2019). |

Artur Gomes é poeta, ator, videomaker e produtor cultural. Tem diversos livros publicados, sendo os mais recentes Juras Secretas (Editora Penalux, 2018) e Pátria A(r)mada (Editora Desconcertos, 2019). Dirigiu a Oficina de Artes Cênicas do Instituto Federal Fluminense de em Campos dos Goytacazes-RJ de 1975 a 2002. Em 1983, criou o projeto Mostra Visual de Poesia Brasileira e, em 1993, idealizou o projeto Mostra Visual de Poesia Brasileira Mário de Andrade — 100 anos — realizada pelo SESC São Paulo. Atualmente, leciona Poéticas no Curso Livre de Teatro em Campos dos Goytacazes-RJ e coordena o Sarau dos Pretos e das Pretas na Casa Criativa Santa Paciência. Acaba de gravar no home studio Fil Buc — Produções o disco Poesia Para Desconcertos, com produção de seu filho Filipe Buchaul.