anunciação, poema inédito de Rafael Zacca

quando eu tinha 5 anos
minha mãe lia comigo
os livros de Ezequiel e Isaías,
e o Livro das Lamentações,
meu coração se enchia de graça
e eu tinha certeza:
eles me anunciavam

eu era Jesus quando tinha pena
dos animais ou quando olhava
por baixo das saias
de minhas tias, quando jogava
bola de gude ou me trancava
no quarto e gemia

eu era Jesus quando acertei
a cabeça do Rodolfo com um ralo
de ferro e também quando chorava
no banheiro eu era Jesus
e as minhas partes mais baixas
luziam

eu pedia pra minha mãe
ler o evangelho de Lucas

eu estava vidrado na minha vida
de menino, os milagres
não impressionavam
(verter água em vinho
não é nada se o seu pai
inventou as substâncias)

sei que é Jesus que abre as pernas
para lavá-las no chuveiro
cobertas de sangue, quando
emerjo do sexo, as mãos
também vermelhas
como quem escalpelou
um bicho.

Rafael Zacca (1987) vive no Méier. É poeta e crítico. Ministra oficinas de criação literária na Coart/UERJ. É professor de Teoria Literária na UFRJ. Foi co-articulador da Oficina Experimental de Poesia (2013-2018). Publicou Kraft (Cozinha Experimental), Mini Marx (Editora 7Letras), Mega Mao (Editora Caju) e A estreita artéria das coisas (Edições Garupa).