cinco poemas de Tarso de Melo

hoje

Amanhã vai chover mais forte,
todos nós já sabemos.
E é estranha a calma dos rios.

Os guarda-chuvas seguem fechados,
os meteorologistas fingem não ter nada com isso,
o barro não demonstra qualquer apreensão,
o vento lambe as roupas secas no varal,
nenhuma janela ainda se fechou.

A água vai vir, forte, como sempre,
engolindo todo o sossego ao redor,
mas os buracos não confessam
as tristes poças de amanhã.

As casas, as coisas, as vidas,
o que sucumbirá ao mar inevitável
não dá sequer um suspiro,
não se despede de nós, de nada.

Plantamos no solo morto
esse esquecimento do futuro
— e tudo o que brota chamamos

hoje.

desencontros

foram apenas nove
talvez dez
os meus encontros
com Orides Fontela

no primeiro
ela me perguntou
como aprendi a voar
e eu expliquei
que foi da primeira vez
em que caí
de um de seus versos
e ela torceu o nariz
para meus voos

no segundo
e também no quinto
ela me explicou
que Kant não sabia amar
nem dizer
para que servem
os pássaros
e as asas de quem anda

no terceiro
improvisamos
um mapa-múndi na toalha
e os povos solitários
expulsos do poema
cruzavam os hemisférios
tropeçando em copos sujos
e migalhas de um pão
que não nos atrevemos
a comer

no quarto
nada além de silêncio
nada tecemos
nada trouxe comigo

no sexto encontro
ela jogava uma canção
de uma mão para a outra
esticava e amassava os versos
rasgava as palavras
e deixava cair
com os pedaços delas
tudo que eu fingia
e fingia entender

no sétimo
talvez no oitavo
Orides reclamava da forma
como o fotógrafo
insistia em buscar
detrás dos seus óculos pesados
alguém que já havia partido

Orides não apareceu
na nona ou décima vez
em que a esperei
na porta do prédio
sob o bronze da placa
cujas letras precárias
gritavam INVISÍVEL

foi apenas um
meu encontro
com Orides Fontela

: foi nenhum

tigre

triste-distante, diante
dos últimos
acontecimentos:

tempo de silêncio
concêntrico
nervos de aço
mar de papel

mente a mil
mas serena
quieta (espinha
ereta, coração
tranquilo)

como quem se prepara
(tigre, tigre, brilho, brasa
: um amanhã a cada manhã)
para as artes
infalíveis
do ataque

por que

retrair-se à agenda alheia — desistir
dos cinco sentidos — por que o relógio,
as distâncias que cria, o mover-se
a sua sombra — por que as chaves
giradas, o diário trancar-se com a família
— por que a gravata, esperar o fim do dia,
dos dias — por que o espelho, o asseio,
a rotina dos sapatos — por que as senhas,
os códigos, os telefones de emergência,
endereços — por que os passos, os prazos
exíguos, as datas consumidas
como aspirinas

matas

já tínhamos prometido não falar mais de poemas
pensei em pegar uma pá ou a marreta dos dias
quebrar as calçadas todas da cidade
até que se erga novamente o que enterramos

não é apenas sobre nós que cai todo esse sufoco

os antigos falam de um rio que corria bem aqui
e se espantam quando digo que apenas sete por cento
da mata antiga resistiu às serras do nosso desejo

e eu me espanto mais que eles quando penso
que nem mesmo sete por cento dos poemas
que cobrem como mata densa o que chamamos mundo
devem resistir ao silêncio atlântico que se projeta
daqui até a mais distante das línguas

Tarso de Melo é poeta e ensaísta, nascido em Santo André/SP em 1976. Lançou, entre outros, Íntimo desabrigo (2017), Dois mil e quatrocentos quilômetros, aqui (com Carlos Augusto Lima, 2018) e Alguns rastros (2018). Em breve lançará a antologia Rastros, reunindo grande parte dos poemas que publicou desde sua estreia, há vinte anos. Advogado, doutor em Filosofia do Direito pela USP. Colaborador das revistas Cult e Quatro Cinco Um. É curador de “Vozes Versos” na Tapera Taperá (com Heitor Ferraz Mello), de “Passaporte: Literatura” no Goethe-Institut SP (com Marcelo Lotufo) e de “Algaravia! poesia na Mário e nos bairros”, da Biblioteca Mário de Andrade.