sete poemas de André Capilé

I.

rua foi a primeira palavra que disse.
quando saí, pernas no mundo, ouvi:

volta logo pra casa — a escuderia le cocq,
a polícia mineira, o opala preto —

era voz de ameaça, palavra de ordem
moral e cívica que levou meus amigos

de infância. não havia santos, como se.

II.

se ao vir às suas costas dias cinzas
há caminhos de andar, outros de salto.

há caminhos enquanto não mudarem
o barulho dos tacos no asfalto.

III.

se alguém embala a quem o ódio grassa
disfarça quando o dízimo dizima

os que, não por torção, fazem escolhas
fora do estribo estreito da manada.

IV.

franzido o cenho, a dissensão assanha
inverter ritmos à sanha devota

do controle de linhas que nos veem
do subterrâneo e esgotam o salobro

do insalubre mundo livre só músculo.

V.

e o verde da miséria observava
a trama da anti-história que assobia.

na pressão manifesta dos desejos,
de corpos atritando-se entre beijos,

naquela encruzilhada de onde um sol
detrás da barricada avolumava.

VI.

determinar a posição no centro
possibilita o ataque em beira extrema,

cuja ameaça não conversa, aponta.

mesmo que a execução seja um fracasso,

jogos posicionais podem cumprir
um papel eficiente em apagar

não só os rastros, mas o comprimento
das ondas por quebrar fora do atol.

VII.

eu, que sou um, e estou com os demais,
tenho o endereço incerto da partida
enquanto espero. não desperto a luz,
nem cedo ao desespero dos mosquitos
que zunem pela beira do chapéu.
comia ali no trecho, com os meus
companheiros, a conta da ração
medida por miúda; contra o tempo,
inchando na capanga, indiferente
ao sol estacionado e o pelo em ovo
de olhar o dia longe, longo e verde,
na tocaia eu rezava meu kasanje
mirando pelo furo das miçangas
o vezo de vazar cada inimigo.

André Capilé é um poeta brasileiro, nascido em Barra Mansa, Rio de Janeiro, em 1978. É graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Letras pela PUC-Rio. Doutor em Literatura, Cultura & Contemporaneidade, também pela PUC. Publicou rapace (Editora TextoTerritório, 2012), balaio (Editora 7Letras, 2014) e muimbi (Edições Macondo, 2017); traduziu, para a Edições Macondo, The Love Song of J. Alfred Prufrock na coleção Herbert Richers. Tem previsão de lançamento este ano pela Editora TextoTerritório dos livros chabu e rebute.