a primeira aranha, de Henrique Balbi

Os gritos já tinham cessado quando os meninos, esgueirando-se, chegaram à beira do buraco.

Era a sétima noite que ela estava lá embaixo, mas a primeira em que sua voz não montava no vento úmido e subia rasgando o ar da fazenda adormecida. Diziam que lá em cima a sinhá não conseguia dormir, que quando pregava o olho logo vinha o lamento a gorar os sonhos. Diziam que o grito era contagioso, porque os gêmeos acordavam em seguida, gritando também. Só quem dormia a sono solto, um sono bruto e oco, era o senhor.

Os meninos chegaram de mãos dadas, caminhando pela mata. Não ousavam nem sussurrar. Teriam chegado bem antes, se não tivessem vindo devagar, calculando cada passo, pisando sempre em mato fofo, pé ante pé. Não podia ter barulho, ao menos nenhum barulho grande — o chiado da grama até que tudo bem, pois era fácil confundir com uma paca, ou um desses bichos miúdos que aproveitam o frescor da noite e o sono da fazenda para andar. Os meninos sabiam como era: agora, aproveitavam eles mesmos as horas de guarda baixa, as horas vesgas dos sentinelas.

Tinham caminhado bastante. O buraco ficava longe, meia légua antes do rio. Diziam que de propósito, para os castigados terem medo de ficar lá até e durante os meses de cheia. Os meninos mal conseguiam imaginar o terror de estar no fundo do chão e começar a chover. Se fosse tempestade de trovão, era pior ainda: os primeiros a se afogar eram os gritos.

A última chuva, ainda bem, havia sido há duas missas. É verdade que isso aliviava um pouco para ela, lá embaixo, mas não ajudava em mais nada: sozinha, já quase sem voz, as costas laceradas, talvez com uma perna quebrada na queda. Tinham dito para os meninos que gritos trazem várias cores de dor. Ela parecia estar com um arco-íris delas, pelo som que vinha da goela da terra.

Ao ouvir isso, um dos meninos, o mais velho, não pôde dormir. A cabeça parecia alternar, ali dentro, dia e noite, tão rápido quanto um rio bravo. Às vezes ele via para trás: ele e os outros dois no colo dela, ou sentados em roda perto dela, ouvindo os relatos cantados com o sol a pino. Outras vezes ele via para frente: quatro sombras à beira do buraco, a primeira noite de lua nova, o gargarejo da água bem baixinho. Teve certeza de que não eram sonhos na manhã seguinte, porque conseguiu segurar consigo a visão, que escapava, mas não se esfumaçava — o que revia e o que previa eram todas lembranças, por mais esquisito que fosse uma lembrança ainda não acontecida.

O menino levou os dias e noites seguintes para contar e convencer os outros dois de que ela só sairia de lá de baixo com a ajuda deles. Os dois relutaram. Primeiro, acharam impossível: o buraco era fundo, eles fracos, a escuridão feroz. Mas estava plantada a semente de ideia, que começou a brotar naquela mesma noite, regada a gritos. Depois, eles acharam difícil: o buraco era longe, eles lerdos, a escuridão larga. O menino aceitou as razões, mas não a conclusão. Bolou um plano de ida e um de volta. Na terceira conversa, mostrou aos outros o que tinha pensado — eles, por sua vez, acharam possível, apesar do buraco, deles e da escuridão. As últimas resistências foram vencidas no quinto dia, quando disseram que a sinhá mandara não mais descer comida para o buraco — quem sabe assim não se fazia algum silêncio enfim?

Isso precipitou os planos dos meninos, mas não os desanimou. Foram. De mãos dadas, mas foram. Pisando leve e lento, mas foram. Morrendo de medo de onça e de chibata, mas foram. Depois de muita andança, pensaram que a noite acabaria antes do caminho, de tão longa a picada mato adentro.

Afinal chegaram. Na beira do buraco, o menino mais velho encarou o escuro do poço e se abismou: antes já era difícil ver alguma coisa, agora ali só via coisa alguma. Seus olhos e os dos outros dois, depois de muita noite, tinham se acostumado às beiras difusas dos objetos, aos contornos mais adivinhados do que distinguidos, mas ali o costume de nada adiantava — era uma escuridão mais grossa que a sombra da lua nova.

O menino mais velho sussurrou o nome da segunda mãe, mas não veio resposta.

Um dos outros meninos disse que talvez ela estivesse dormindo. Os três, então, chamaram juntos, sussurrando em sincronia, para ver se ela acordava.

Não escutaram nada de volta.

Resolveram aumentar o volume. Chamaram o nome de batismo dela, chamaram o outro nome dela — o de verdade, o nome profundo, que os brancos nunca saberiam — e até, mais por eles do que por ela, cantaram uma cena de um relato dela.

Era a história da primeira aranha, que roubou da baba de um touro o segredo de tecer. Ela o ensinou aos filhotes e, sabendo que o touro viria se vingar dela, teceu três teias: uma pequena, que os alimentaria; uma média, que prenderia o touro; e uma grande, por onde fugir.

A menor deu certo, tanto que toda aranha sabe tecer. A média deu errado, porque na sua fúria o touro a arrebentou, arrebatando a primeira aranha junto, pisoteada na confusão. A maior não se sabe no que deu, quer dizer, quem souber cantar a história acaba deduzindo: deu no céu. Cada estrela é um nó da teia da primeira aranha.

Não havendo nenhuma resposta, o menino mais velho se encheu de coragem e resolveu prosseguir com o plano, do mesmo jeito. Pediu que os outros dois lhe dessem os trapos que tinham juntado, amarrados uns aos outros numa longa corda. Prendeu uma ponta numa árvore ali perto e a outra ao redor do peito, debaixo dos braços. Desceu pelo buraco, metendo-se bem no centro do obscuro. Desceu o mais devagar que conseguiu. Se pudesse, roubaria um vaga-lume para usar de lampião.

Ao chegar no chão sob o chão, ele chamou mais uma vez a segunda mãe. Nada. Caminhou pelo buraco, também calculando cada passo. Agachou-se, tateou a terra. Deu duas, três voltas por ali. Era como se nunca ninguém não tivesse ficado ali.

Daí, o menino mais velho começou a subir. Os outros dois o ajudaram. Ali, na beira do buraco, sem ela, os três ficaram com a mesma cara de surpresa que, no dia seguinte, contagiou o resto da fazenda: como assim, onde ela tinha ido parar? Nada? Nenhum sinal? Nem um trapo, uma marca, um fio de cabelo? As versões se espalharam: fugida, raptada, escondida, abandonada, morta, encantada. Mas no fundo nada explicava.

O menino mais velho muito menos. A princípio, lá embaixo, ele ficou aflito, achando que era tarde demais. Depois, desconfiou. No fim, deixou estar: agarrou firme na corda de trapos, pôs-se a subir de volta, quase escalando. Ia com o olhar fixo na boca do buraco, que parecia uma janela para o céu.

Nela despontavam um punhado de estrelas, alumiando o domingo que nascia.

Henrique Balbi é escritor, professor e jornalista. Nasceu em São Paulo, em 1992, mas morou em Botucatu (SP) até 2011, quando voltou à capital para estudar jornalismo na ECA-USP. Em 2014, estagiou no núcleo de revistas da Folha de S.Paulo, mas preferiu os caminhos da literatura: trabalha atualmente como assistente de ensino no Anglo Vestibulares e, em 2017, concluiu um mestrado no Instituto de Estudos Brasileiros (USP), com foco na obra de Fernando Sabino. Além disso, entre 2013 e 2017 escreveu para o site Salada de Cinema, onde publicava a “Cine-Remix”, coluna que misturava enredos, gêneros e temas de filmes.