anacronismo neocolonial, de Amanda Santos

— Venha cá, morena bonita
Negra da terra tropical
Chama o chefe da aldeia
Diz que quero conversar.

— Ô moço estranho,
Branco leitoso
Mal chegou e já dita regras
Primeiro, me fale teu nome
E qual é a tua terra.

— Prazer, João Ribeiro
Vindo do reino de Portugal
Tenho grandes planos na cabeça
Importados de minha terra natal.

— Portugal eu desconheço
Jamais ouvi falar
Melhor refazer teu caminho
Que não temos nada a acordar.

— Fique calma, minha querida
Não estou aqui para guerrear
Procuro apenas ouro e prata
Para rico poder ficar.

— Ouro e prata, o que é isso?
Creio que está perdido
Aqui não temos nada parecido
Desconhecemos relíquias deste tipo.

— Cigana, não brinca comigo
Melhor ficar longe do perigo
Dê-me logo o que te peço
Senão terei que te matar!

— Mas, senhor, eu já te disse!
É você quem está perdido
Tua caravela aportou no sítio errado
Se acha que aqui será próspero
Está bem equivocado.

— Eu sei que mente, eu desconfio
Engana-me gratuitamente, sem qualquer motivo
E nem somos ainda inimigos!
— acabamos de travar contato —
Este é apenas o princípio.

— Meu amado viajante
Rogo então a ti um pedido
Verifique no teu mapa
Se é este mesmo o teu destino.

— Ora, mas que besteira
Interrogar-me de tal maneira
Que absurdo, que insulto
Cogitar que o melhor navegante do século
Não bem seguiu as coordenadas.

Aqui, olhe este desenho
Ele me trouxe direto a Pasárgada
Quero fincar nela minha bandeira
E fazer dela a minha pátria!

— Oh, estava certo o tempo todo!
Seja muito bem-vindo, seu Ribeiro
Sem delongas nem mais rodeios
Venha explorar este vazio inteiro!

— Vazio, sua louca?
Pasárgada é o paraíso!
Terei as mulheres de que preciso
E do Rei, serei o favorito.

— Não é possível, a notícia a ti não chegou?
A Pasárgada dourada não mais existe
Foi destruída pelo último tirano que aqui governou
Deixando nosso antigo reino em total crise!

Aqui os sonhos não mais se fazem
Todos são fragmentados
Reduzidos a pó e a migalhas
E no lixo são atirados
sem a menor piedade.

— Oh, morena! Quantas milhas viajei
Para ouvir uma coisa dessas
Quantos mares naveguei
Para pisar em uma lenda.

Que pesar, que tristeza!
Que ilusão, que angústia!
Vou-me embora de Pasárgada
Antes os ventos tivessem me posto
Em alguma rota errada.

Amanda Santos é historiadora, recentemente formada pela UFRJ, e pesquisadora em tempo integral; leitora ávida, poeta, cronista e visionária nos interstícios de tempo. Escreve, sobretudo, acerca de problemas do cotidiano carioca, como violência urbana e contra as mulheres, além de questões subjetivas e relacionadas ao mundo do trabalho. Metalinguagem é outro de seus temas fortes.