inventário de sombras, de Claudio Parreira

Das 9 às 6 eu inventario as sombras daqueles que foram eliminados pelo Novo Regime.

A coisa toda é bem simples: eu recebo um lote de arquivos — que são cuidadosamente escolhidos pelos membros do Novo Regime — e minha função é anotar os nomes e atividades subversivas do que as sombras foram um dia. É rápido, preciso e higiênico: sem emoção ou considerações filosóficas, o que me deixa à vontade para produzir na velocidade que as novas leis trabalhistas exigem. Ao final do expediente o inventário está pronto: 100, 200, 300 sombras catalogadas, medidas, pesadas. Às 6 em ponto os agentes do Novo Regime recolhem tudo e o meu trabalho vai para o fogo, para o esquecimento (sim, é preciso apagar todo e qualquer registro); de minha parte, só a satisfação do dever cumprido. As sombras, ora, fodam-se as sombras.

Estou aqui desde sempre, acho, desde antes do Novo Regime. Ou melhor, minto: antes que a Ordem fosse alterada eu fazia algo que já nem me lembro mais, e havia gente no lugar das sombras, havia amor e uma série de direitos ditos humanos. De que serviu tudo isso? Atraso civilizatório, perda de tempo e recursos, entulho humanístico e retórico. A Norma agora é a objetividade: sim senhor pois não seja feita a vossa vontade. Economiza uma série de inconvenientes e o país cresce de acordo com os interesses dos novos líderes.

Não posso dizer, no entanto, que sempre fui a rocha que sou hoje. Fraco, hesitante, passional: eu era isso. Bastava me deparar com uma sombra mais frágil e eu me punha a chorar feito criança. Os agentes do Novo Regime logo perceberam e me corrigiram, graças a Deus; hoje trilho com segurança e firmeza os promissores caminhos impostos pelo Regime.

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Um dos lotes de arquivos que recebi hoje continha as sombras da minha mãe, dos meus irmãos e de uma antiga namorada. Era um teste. Volta e meia os agentes me aprontam coisas desse tipo. É uma armadilha para conferir a minha fibra, um recurso para avaliar a minha fidelidade aos métodos vigentes.

Tratei as sombras como sempre: com distanciamento e nojo. Pouco me importam agora os laços de família — é uma fraqueza, e como tal deve ser combatida. Não cedi aos apelos da emoção; os agentes, tampouco.

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Faz dois dias que recebi um lote contendo apenas um arquivo — o meu. Dei a ele o mesmo tratamento, sem perguntas, sem lamúrias; como aprendi, é preciso ser profissional acima de tudo.

Em breve os agentes do Novo Regime virão me buscar para o fogo — porque eu sei demais. E é assim que deve ser: destruir todo e qualquer registro.

Não serei informado sobre quem vai ocupar o meu lugar; o Novo Regime tem lá as suas reservas e eu concordo com todas as suas decisões. Sei apenas o seguinte: o meu sucessor, de tanto inventariar sombras, acabará ele mesmo se tornando uma delas.

Como eu.

Claudio Parreira é escritor, foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, entre outras publicações. É autor, pela Editora Draco, do romance Gabriel e também da coletânea de contos Delirium, pela Editora Penalux. Pela mesma editora, lançou o romance-provocação A Lua é Um Grande Queijo Suspenso no Céu, em 2017.