#minicontos para futuro nenhum, de Adriane Garcia

1.
Havia sido um país incrível. Nunca um país perfeito, mas um país incrível. Agora, nem carnaval. Ninguém tinha coragem de vir, exceto os doentes depravados que pagavam em dólar para matar morador de rua. O presidente aprovava, todo mundo sabia. Ele tinha dito em entrevista que aprovava extermínios. Ontem, começaram a usar lança-chamas.

2.
Era o primeiro ano em que todos andavam armados. Elaine esperava o filho, sem dormir. Um tiroteio. Não era o primeiro. Mas desta vez, Leonardo não voltou.

3.
Era março de 2020. Debruçado na mesa, o desespero. Chorava porque tinha entendido agora. Chorava porque tinha metido uma bala no Tuca e daqui a pouco, tudo acabado. Marlene sumiu aos gritos, a polícia viria.

— Você não entendeu, Odair, que esse homem só queria que a gente mesmo exterminasse a gente?

4.
Servicinho sujo do Wilson e do Júnior. Sair à caça, à noite, para matar travestis. Gozo estranho, antes de apunhalar e gritar o nome do presidente fascista, ver, olhar. Eles gostavam de ficar olhando. Wilson escondia de Júnior certas inclinações. Júnior escondia de Wilson certos desejos. Tudo aplacado em fúria.

No sábado, completarão 17 assassinatos e receberão uma medalha; depois da leitura dos salmos.

5.
Meu irmão era negro. Quando eu descobri que ele ia votar no governo fascista, eu entrei em pânico. Não sei se foi intuição. Tentei de tudo, falei que ele não viveu em Venezuela nenhuma, que já havia um genocídio da população negra, que ia piorar ainda mais, mas não me ouvia, fascinado com o militar branco. Tudo me parecia surreal, ele conhecia de perto o racismo, eu queria dizer a ele: — acorda, acorda!

Mas não ali, baleado pela polícia; não ali, eu na beira de um caixão.

6.
A comida do mês não tinham. O aluguel também não. Um país desse tamanho e nem comida do mês nem aluguel. A gente de sorte, bem alimentada, julgava: pra que filho nesse miserê? Joana e Fabiano aguentando o sonho. Um dia, a vida melhorava e eles veriam os olhos vivos do filho. Fabiano queria menina. Joaninha. Mas despejo e fome. Pobre sonha? Assinaram os papéis em troca da nova bolsa “família”.

Joana saía da sala de esterilização, pálida e vencida.

7.
Entre celetistas terceirizados, estatutários antigos e carteiras verde e amarelo, o serviço público definhava. Carina se lembrava dos bons tempos de democracia, quando podia parcelar uma viagem ao Nordeste em dez vezes. Agora, nem isso.

8.
Eles viviam assediando as moças na saída do bar. Todos sabiam que Reinaldo e Roni eram dois idiotas. Lena e Mari já tinham escapado outras vezes. Porém, agora, eles estavam armados.

9.
Rafael escovava os dentes de frente para a TV. Pressa para pegar o segundo trampo. A popularidade do presidente caía vertiginosamente. Rafael tentava juntar algum que cobrisse a falta do décimo terceiro salário. As ações da Taurus subiam. Ele deu um tiro no pé.

10.
Lá fora, depois de alguns anos de doutrinação das igrejas — as creches passaram a ser neopentecostais — e dos novos conteúdos escolares ensinando Criacionismo e negando o Golpe de 64 e a Ditadura Militar, pouca gente ainda praticava o conhecimento. Isso poderia definir vida ou morte. Enairda voltava apressada e desconfiada, no inseguro caminho da estação do metrô para casa. Nenhum caminho era seguro, ainda mais para quem possuía livros.

11.
O cara entrou em campo, cometeu todas as faltas, comprou o juiz, roubou nos pênaltis, agrediu os jogadores adversários, fingiu que se machucou, fez todos os gols com a mão e teve a cara de pau dos desonestos de levantar a taça. A torcida dele, tão desonesta quanto, aplaudiu.

12.
Douglas e Sheila se despediram de Lucas. Tarde para chorar. O Brasil não se transformava na Venezuela. Transformava-se nas Filipinas. O novo presidente batera continência para a bandeira dos Estados Unidos e não fora à toa. Boas relações, apesar da oposição interna e do asco da comunidade internacional. Em outubro mesmo, já chegavam os primeiros tanques. A ordem era o Brasil invadir a Venezuela e retirar Maduro. Os casais que apoiaram o novo governo experimentavam a dor inédita de enviar um filho para a guerra.

13.
Plutão e Saturno estavam em Capricórnio, na casa doze. Era isso que eu falava para mim mesma, tentando me convencer de que nada poderia ser feito, além do que fizemos. Amigos queridos, conhecidos necessários iam desaparecendo. O novo governo parecia não ter defeitos, nem inimigos, já que a imprensa toda estava censurada. Os pobres já sabiam que foram enganados. A classe média não dava o braço a torcer, mas agora eram seus filhos na luta armada, tentando expulsar, à revelia dos seus pais, Plutão e Saturno em Capricórnio, na casa doze.

Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, Ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (Ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (Ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (Col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (Ed. Penalux, 2018).