entre livros, crônica inédita de Pedro Menezes

Fica em uma rua secundária, meio escondida. Livros antigos, raros, gravuras, obras de arte, antiguidades. Loja e um mezanino, atulhados: uma mistura de sebo com antiquário.

Na vitrine, igualmente lotada, além de livros, objetos, entre eles um belíssimo abajur antigo, dividem espaço com uma cesta de vime. Dentro, uma gata. Vira-lata. Mas com uma coleira de pingente. Ela é grande, meio gorda, toda manchada, tons alaranjados, bonita, imponente.

A verdadeira dona e senhora do local. 24 horas por dia entre histórias, objetos, lembranças, personagens, passados.

Durante os dias, finge dormir na cesta, mas de verdade, está atenta a todo e qualquer cliente que entre pelas portas de vidro.

Colombina é a guardiã de tudo e de todos. Não é qualquer um que vai levar a segunda edição de Dom Quixote. Muito menos folhear aquelas edições italianas do século XIX.

Turistas ela não gosta. Sabe que só estão entrando pelo pitoresco do local, não pelos seus tesouros. E ai daquele que tentar afagá-la. Solta um rosnado agudo que intimida quem chega perto demais de sua cesta.

Mas sabe reconhecer os que gostam de livros. Estudantes, escritores, bibliófilos. Esses tem um ritmo e um brilho diferente no olhar quando entram na loja. Uma reverência que ela percebe de cara.

Silenciosos, ficam horas percorrendo as diferentes estantes, conferindo as lombadas, examinando frontispícios, folheando cuidadosamente as páginas delicadas, às vezes cheirando os livros.

A primeira vez que pus os pés lá, não dei pela gata. Estava atrás de um livro raro, essencial para um ensaio que não conseguia terminar. Não encontrei o que queria, mas saí de lá com uma sacola cheia. Só na porta eu percebi a cesta de vime na vitrine. Mas prometia chover e fui embora correndo.

Voltei outras vezes. A cada nova visita, percebia mais os olhos dela me espreitando. Foi só na quarta ou quinta vez que parei na sua frente. O dono já havia me alertado para tomar cuidado com suas garras, mas teimoso encarei a bicha. Ela parecia estar me avaliando pela pilha de livros que eu tinha escolhido. Não me arrisquei a passar a mão nela. Ela também não me unhou nem rosnou para mim.

Meses depois entrei na livraria novamente. O dono não estava, apenas a moça da faxina, que fazia as vezes de balconista. Fui direto para estante dos italianos. Estava tão entretido com algumas futuras aquisições que mal percebi um roçar nas minhas canelas.

Hoje, sou eu quem está atrás do balcão. Comprei a livraria com todos os livros e objetos. Só impus uma condição ao antigo proprietário: Colombina ficou.

| crônica do livro O menino passarinho (no prelo). |

Pedro Menezes está envolvido com criação desde 1992, quando se formou pela ECA-USP. Pai do João, é artista plástico, ilustrador e designer gráfico. Adora Matisse e desenhar ouvindo Miles Davis. É autor do livro Caderno de Observação de um Filho, publicado pela Pólen Livros, que hoje continua no blog homônimo [link]. Com seu parceiro Lúcio Goldfarb, publicou três livros infantis também pela Pólen: Joãozinho Quero-quero, Cadu e o mundo que não era e Urso Alfredo e o mistério na neve.