a mulher que escorreu pelo ralo, de Gael Rodrigues

Aconteceu na primeira semana de junho. José José chegou em casa no início da noite e cansado jogou-se no sofá. Chamou pela mulher, sua mulher, Valquíria. Não veio. Chamou e chamou e ela não apareceu, muito menos respondeu. Uma dos pequenos passou pela sala e alertou ao pai que a mãe devia estar no banho, era

só reparar no barulho do chuveiro.

Isso não é hora de banho, é hora de me receber

e,

maldição, essa mulher está cada vez mais estranha e cheia de quereres.

Quando ele foi à cozinha notou que não havia nada no fogão, sequer na mesa, e deveria haver jantar pronto porque ele chegava sempre nessa mesma hora cansado e com fome. A calma que era quase nenhuma se esvaiu e ele foi ao banheiro. Bateu na porta.

Cadê o jantar,

perguntou enquanto batia, bateu mais e, como ela continuava sem responder, abriu a porta e perguntou pela última vez, e

essa mulher deve estar surda.

Ele afastou a cortina que cobria o box. Descobriu o chuveiro a molhar coisa alguma, apenas o chão do minúsculo banheiro.

Onde está sua mãe,

exclamou e o pequeno ao lado da pequena apenas mexeu a cabeça, ambos assustados, em frente a porta onde o pai se exaltava. E realmente não sabiam, a mãe estava com eles o dia todo e arrumou toda a casa, brincou um pouco depois que voltaram da escola, foram dizendo sem fôlego ao pai, então

ela entrou no banho e

— Estou aqui.

Eles se voltaram para dentro do banheiro. Ninguém estava lá. A mulher não estava lá. Fora também não estava. O homem, antes nervoso, ficou nervoso e assustado, pensando ouvir espírito mas não, os filhos também buscavam com os olhos a mãe e

— Estou aqui embaixo.

Foram em direção ao box do banho. Ele entendeu o que tinha acontecido: Valquíria havia escorrido pelo ralo.

Sai já daí. Vem fazer o jantar.

— Não vou, não.

E não foi. Não saiu mesmo de dentro daquele ralo. Um insuspeitável ralo de inox como cúmplice. Vez ou outra ele voltava lá e a chamava, mandava que saísse, que

tem seus afazeres, seus deveres,

seus filhos estão à míngua,

eu estou à míngua.

Ela respondia que

— Não vou voltar,

_______________— Estou feliz aqui,

______________________________— Feliz como nunca fui.

Depois de um tempo parou de responder, mas ele sabia que continuava lá: podia ver a fumaça que saía do ralo. Continuava a fumar, e ele odiava que ela fumasse.

Vocês estão dando cigarro para ela?

Os pequenos mexeram a cabeça em negativa. Mexiam-se por medo de falar, e o medo que tinham do pai só aumentava e nem era pouco antes que a mãe escorresse ralo abaixo. Aproveitaram um dia em que ele estava no trabalho, juntaram as coisas, poucas coisas afinal eram crianças, não podiam esquecer os brinquedos e o cigarro que mãe pediu. Entraram no banheiro, giraram o registo, o chuveiro encharcou os dois de mãos dadas e desceram pelo ralo.

Quando o pai chegou em casa, e mais uma vez havia chegado cansado, gritou pelos filhos, exclamando

onde está o jantar,

eram eles agora os responsáveis pela casa, e ao não receber nenhuma resposta, além de cansado ficou irritado. Ao ouvir o chuveiro ligado, novamente sabia o que aconteceu.

A mãe pediu que eles ficassem quietos, enquanto o pai gritava por eles, mas o pequeno não se aguentou e riu, riu-se deveras, e a mãe e a pequena também riram porque rir é um processo osmótico.

O pai xingou todos eles, os maldisse e mandou que eles

saiam daí agora,

agorinha mesmo.

Não saíram.

O tempo passou e José José encolheu-se um pouco, penou um pouco, estar só não era uma coisa que estava acostumado ou preparado ou tivesse aprendido então, resolveu que era hora de conseguir outra mulher para botar em casa.

Botou.

Na primeira semana mal lembrava do nome dela, mas na segunda já sabia que era Lourdes, Lourdes moça nova que morava só com a mãe e não tinha muita opção, então casar com José José era

bom sim, muito bom,

a mãe falou querendo que a filha saísse de casa. Era calada, dessas que falavam pouco por ter conhecido poucas pessoas na vida, a língua pouco usada e treinada. Respondia,

sim,

sim,

e

não

e com pouco tempo na casa passou a responder apenas

sim.

Até que numa madrugada, notando o lado da cama vazia, ele se levantou e ouviu a voz dela. Eram tantas palavras que era como ouvi-la pela primeira vez. Falava, ria, contava confidências, segredos de uma vida sem segredos, e calou-se assim que ele a surpreendeu falando sozinha no banheiro.

Com quem você está falando,

bradou e ela fingiu-se de sonâmbula, falando como louca, olhando para o nada e gesticulando com os braços. Voltou para a cama e José José demorou a acreditar, mas acreditou, afinal aquela mulher, que ele havia esquecido o nome mas era Lourdes, não tinha cérebro o suficiente para fingir-se de louca. Devia ser sonâmbula mesmo, e sonâmbula falante.

Não era.

No outro dia, assim que ele voltou para casa, cansado e dessa vez irritado de véspera, notando a casa vazia e silenciosa, ouviu o chuveiro e nem chamou. Já sabia. Derrubou a porta xingando e esbravejando em direção ao ralo simples de inox e de lá pôde ouvir a risadaria e felicidade que os quatro, sem ele, compartilhavam. Não era possível. Não era possível que aqueles quatro estivessem fazendo isso com ele. Sem ele. Era hora de ele descer naquele ralo e trazê-los de volta.

Tirou as roupas, sem certeza das regras que deveria seguir para escorrer, girou o registro, o chuveiro o encharcou e num instante estava ele, conseguira sim, embaixo do ralo.Olhou para os lados e a escuridão o circundava. Podia ouvir o barulho do chuveiro que lá em cima ainda chuviscava.

Gritou pela primeira mulher. Nada. Depois pelos dois pequenos. Depois pela segunda mulher que ele não lembrava o nome mas era Lourdes. Nada. Não havia ninguém embaixo do ralo. A água que caía de cima parou de cair. Alguém havia desligado o chuveiro.

Ei,

ele gritou fraco quase deixando de ser grito,

quem está aí.

Ninguém respondeu, mas ele conseguia ouvir um riso, riso que de início tentou se conter, do pequeno, o pequeno que não precisava mais se conter. Logo depois os quatro riam, em cima, longe dele. Continuou gritando, e gritando, grito transmutado em pedido chamando eles. Antes que ficasse rouco, os risos pararam. Viu os últimos segundos de luminosidade quando taparam o ralo.

Ninguém mais escorreu.

Gael Rodrigues nasceu bode na Paraíba, e hoje metamorfoseado em homem vive em São Paulo. Seu livro Terra Laranja venceu os Prêmios Literários 2017 da Fundação Cultural do Pará como melhor romance. O infantojuvenil A menina que engoliu o céu estrelado foi finalista dos prêmios CEPE 2017 e Barco a Vapor 2018.