pólvora, de Diego Moraes

Homem apaixonado é barril de pólvora. Explode. Tive um padastro negão quando era moleque. Da polícia. Barra pesada. Linha de frente. Cara que ia pra trocação de tiros com a bandidagem nas décadas de 80/90. O chamavam de “Apollo Creed” na delegacia onde tirava plantão. Tratava minha mãe muito bem. Como rainha. Nunca tocou o dedo nela, mas pirava nos ciúmes. De chegar a bater cabeça na parede e chorar no meio da sala na frente de mim e da minha irmã. Não entendia muita coisa. Devia ter sete ou oito anos. Minha vida era ver desenho e chupar sorvete. A vida é tão simples quando a gente só se preocupa em ver desenhos e chupar sorvete. Acontece que certa vez o telefone tocou lá em casa e ele ficou puto. Botou uma camiseta havaiana e o revólver na cintura. “esse filho da puta não passa de hoje!”. Certeza que ele mataria alguém. Talvez um cara que tivesse na moita com a minha mãe. Dando em cima. Importunando. Ou só um vagabundo traficante ou assaltante de banco. Ele segurou minha mão com força e me colocou no banco de passageiro do carro velho dele e dirigiu até uma ladeira onde tava rolando uma banda de carnaval no bairro Educandos. Ficamos distante do frevo. Da muvuca. Acho que pra não dar manchete. A morte não faz alarde. A morte não gosta de enxame. “não sai daqui! Se eu demorar muito você corre naquele bar e fala que mataram seu pai”. E apontou com o braço preto para um barzinho chamado “dois irmãos”. Esse bar existe até hoje. Ele não era meu pai. Não tinha consideração nenhuma por ele. Só o respeitava por ser maior do que eu, mas no fundo o achava bobalhão. “A gente só chora quando é criança” era o que eu dizia para amigos do colégio. Então, ele acendeu um cigarro e saiu com todos os demônios na caçada de um cara e eu fiquei no carro escutando um hit qualquer. Tava com vontade de fazer xixi, mas fiquei segurando. E ele demorou, demorou tanto que tive que abrir a porta do Passat e urinar na rua mesmo. Uma mulher gorda e bêbada, muito gorda e bêbada, com olheiras, bafo de cerveja e estrias no peito começou a me chupar. Meu pintinho não levantou. Meninos tem pinto. Homens tem pau. Ela chupou e depois virou o rabo grande cheio de purpurina na minha cara “morde meu rabo. Dá um beijo bem gostoso no meu rabão”. Eu mordi com tanta força que fiz xixi na calça e ela saiu pulando carnaval. Meu padastro voltou com o nariz sangrando espalhando lodo vermelho na camiseta. Então comecei a chorar. Meus lábios começaram a arder muito. Acho que a gorda tinha passado pimenta no rabo. Chorei, chorei e meu padastro disse pra eu não me preocupar, mas não tava chorando por ele. O tempo passou. Assassinaram meu padastro com 8 tiros num motel da zona sul e hoje, já crescido, sei que o amor arde nos lábios por um tempo e depois some da vida da gente feito miragem. Feito uma gorda pedófila e bêbada que só quer pular carnaval.

Diego Moraes é poeta e contista. Tem sete livros publicados. Alguns dizem que ele é uma das melhores novidades surgidas em nossa literatura nos últimos anos. Os inimigos discordam, é claro.