três poemas do livro ‘Juventude’, de Laís Araruna de Aquino

capa_ararunamorro na medida em que tenho consciência de morrer
(Bataille)

há dias em que não conheço a morte
são dias em que estar entre coisas
não se divide entre estar e não estar entre coisas
como viver fosse o fato mais natural

a vida sem a morte é uma canção
antiga repetida sem lembrança
não falta nem evoca nada
como os campos sob um sol casto
não suscitam a não ser si mesmos

e um deitar longa e atemporalmente sobre a relva
com todas as vozes — do eu — em silêncio
e estando sedento é como estivesse saciado

entanto acontece de se viver no limiar
de algo que escapa até o fim
tornando a vida mesma um limiar indefinido

por isso na transição do dia
divisa a réstia de luz sem a nostalgia
de mais luz
e tua vida expandirá como num sopro

meu ofício

às cinco da tarde um som de apito no ar
anunciou à rua o vendedor de doce japonês
um outro — que inusitado — cruzou comigo
meia hora mais tarde no fim do passeio
em condições ordinárias não se cruza duas vezes
com vendedores de doce japonês
hoje é um dia ordinário cortado pelo maravilhamento
como todos os dias do ano
pela manhã quando atravessava para o cais no Bairro do Recife
as águas e os céus se dividiram em duas metades
de esplêndido azul
e meu coração fundeou à-toa
junto aos barquinhos do Capiberibe
no fim da tarde eu vestia minha camisa branca
bastante usada e rasgada e gostava de que pensassem
em mim alheia às coisas materiais deste mundo
não importa mas o homem é um ser
de grandes questionamentos — inclusive dos menores
meu trabalho consiste em redigir petições
como todos os demais
entanto meu ofício é deixar o coração aberto
permanentemente

____________________o espanto não escolhe a hora de entrar

noturno no campo n. 2

sobre as vozes da tarde os noturnos de Chopin
antecipam o coração silencioso da noite
o som dos homens retumba demasiadamente no espaço
a porta está cerrada como uma metáfora
o dia finda e as janelas estão abertas em par
sobre cigarras latidos e trevas
eles se foram e tudo ficou amplo
mas as palmeiras tão familiares não dão alento
a hora do lobo não distingue forma e enterra o cortejo de sombras —
em alguma parte mais obscura também eu sou lobo
com a face voltada para a face ausente da noite
o sentido não importa mais, não há nada trágico no ar
sequer o prenúncio de uma espera
contemplo demoradamente a fixidez do breu
uma e outra árvore se entreveem tacitamente no horizonte
dedilho nas costelas uma canção há muito esquecida
mas escutando atentamente são pancadas fortes
que martelam dentro do corpo
o vazio escavou profundamente seu canto seco
como desta terra não houvesse salvação
(há salvação mas não para nós)
então faço um movimento para afastar o presságio
e acompanho um barulho que se perdeu longe na estrada

Laís Araruna de Aquino nasceu em 1988, no Recife, onde vive. É formada em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco e Procuradora do Município do Recife. Juventude (Ed. Reformatório), ganhador do Prêmio Maraã de Poesia 2017, é seu livro de estreia e será lançado dia 20 de novembro, em Recife, no Centro Cultural Raimundo Carrero. Lançamento [link]