ni hao!, poema de Sara F. Costa

queria dizer ni hao estou muito contente
por estar aqui
mas toda a gente sabe que só a pele
é expatriada.
tudo o resto pede retorno, os ossos
as veias, os traços mais poluídos
dos sinogramas.
toda a gente quer dizer xiexie
mas não me sinto grata
por cavalgar o búfalo taoista
na parede do templo,
rodopio yin yang da minha frágil convicção.
toda a gente quer dizer jiayou
mas não há combustível
para dessincronizar os sentidos.
há apenas este atravessar de estrada sem tons,
este sabor a moedas,
este odor ao incenso do corpo.
vou de bicicleta de encontro ao poema,
como um Herberto Helder taoista.
de que me serve este passado ruivo,
esta voz a cigarro,
estas corridas em direção aos poemas,
de que me serve o poema por debaixo do rosto.

| poema do livro A Transfiguração da Fome (Editora Labirinto, 2018). |

Sara F. Costa (1987) nasceu em Oliveira de Azeméis. É licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem recebido vários Prémios Literários nacionais na área da poesia. Participou no Festival Internacional de Poesia e Literatura de Istambul 2017 e em 2018 fez parte da organização do Festival Literário de Macau e do Festival Internacional de Literatura entre a China e a União Europeia em Shanghai e Suzhou, China. Traduz poesia chinesa para português. Livros publicados: A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos (Pé de Página editores, 2003); Uma Devastação Inteligente (Atelier Editorial, 2008); O Sono Extenso (Âncora Editora, 2012); O Movimento Impróprio do Mundo (Âncora Editora, 2016); e A Transfiguração da Fome (Editora Labirinto, 2018).