poesia que ninguém lê, de Eltânia André

capa DuelosMeus pés avançaram, eu sem olhar para trás, esperando. Ouvido suscetível ao trágico. Passa tudo, perdeu, passa tudo, senão, morre. Parei. Retrocedi. Pensei em tempos longínquos. Temi não caber em mim a avidez, o inesperado, as lembranças; muitas intocáveis. Como posso dar o tudo, se tenho o vazio como semblante de mim? Concordo com o que ouvi, um dia, numa discussão sobre a morte da literatura: nada garante que a literatura seja imortal… O mundo pode passar muito bem sem ela, mas pode passar melhor sem o homem; ouço o filósofo e penso em mim. Eu sou esse animal a ser extinto, portanto não farei falta alguma. Ele, o homem e seu revólver, do qual nada sei; gritou ratificando sua prepotência belicosa, com aquela arma raquítica, desbotada e de cano curto. Não corra, senão, atiro. Suor escorria pelo rosto desconhecido, adrenalina e medo. Poderia apertar o gatilho. Não o fez. Gritava, trovejando suas ordens. Vadia, vagabunda, pensa que é esperta, passa tudo. Eu que tanto obedeci na vida, tanto me concentrei na sutileza da boa convivência, estava diante de mais uma guerra surda que tudo impõe e assalta. Seria bom transgredir, mas minha boca do avesso reverbera: Sim, senhor! Temi a guerra, sempre. Jamais o rotundo não, no máximo o talvez, ou o balançar indeciso de ombros, e alguns poemas na gaveta que ninguém leu. Preferia o tiro, desejei o fim a ter que obedecer novamente. Não, senhor! Não tenho nada a lhe oferecer. O tempo compacto durava menos do que eu supunha. Sem perceber, por hábito, não por pânico, obedeci. Diga sim, mulher, sussurrava a voz. Reconheci-me em seu eco. Diga sim e viva. A vida ou a bolsa? Rendida novamente, entreguei o celular que quase não tocava, tão velho e mumificado por durex fixando a bateria. O homem correu com o prêmio em suas mãos, o banal sim de minha coleção. Correu como um animal amedrontado, correu com as pernas atléticas e esguias e, por fim, desapareceu dentro da esquina. Por que as esquinas nos engolem? Não satisfeito com o tédio que plantou em mim, com a sua autoridade, protagonizou a lucidez: retirou a venda que, de tão gasta, se encaixava tão perfeitamente. Revisitei a angústia. De frente, cara a cara. Bruta. Meu desejo se camuflava em lugares improváveis. Se corajosa, tirava a venda dos olhos, via o medo maior. Na tentativa de avistar o horizonte; acídia. Se a tirasse de vez; terror. Eu tão desacostumada de mim. Pudica, evito tocar-me. Inevitável; desisto cotidianamente do embate, aprisiono-me sem gana na antessala com agulhas e linhas ou com papel e caneta. As feministas se envergonhariam de mim, sempre me deixo levar, sempre rendida. O homem da arma raquítica não atirou. Desgraçado. Minhas costas esperando o abate, alguém delineando o trajeto da bala pela fresta da janela; meu corpo antecipando a queda; o asfalto gasto a se servir de leito — ontem. Depois que ele se foi, depois do copo d’água com açúcar, eu esperei por algo que não vinha. E a sede sem fim. Não é o mundo lá fora que é cinza, mas o sótão onde caminho, dentro. A arma que eu desconhecia, inerte. Estamos ou não numa batalha? Bombardeios silenciosos. Dissimulada, de porcelana; obedecia, servindo o almoço especial de domingo. O acúmulo de paz azedando no estômago. O amanhã tão igual e resignado, persistia na expectativa do vazio, do oco. Cadê o disparo? O sangue vivo? Preparada, coração com suas batidas excitadas, mãos trêmulas, o labirinto no alto da torre aguardando o que seria o estampido. Minha morte. Talvez, tenha desejado apenas conhecê-la, sou deveras curiosa; não a morte em si, mas a vida corroída pelos dias de tensão, o destampar do fosso, fitar o abismo e reconhecer-me nele e revelá-lo a mim mesma: o seu escuro, a imensidão. E, no desfecho, acordar. Talvez. Incrível: a sensação das costas perfuradas permanece, o pequeno vaga-lume sacode meu mundo pálido; sim, é pálido, descorado. Lembrei-me do meu marido, e dos meus filhos (descabido pronome de posse). E as vasilhas na pia aguardando-me. Sujas, engorduradas. Os filhos, bons meninos, mas não preenchem o rasgo. Viver! É essa amargura iceberg. É solidão em meio a multidões. Não sou eu que provoco, é o existir — esse mistério sem fim. A cara de anos, a mesma cortina de anos, a cama dura, ortopédica, onde dois corpos desajustados unem-se vez ou outra. O raspar de garganta do meu… (novamente o descabido e irritante pronome de posse) do meu macho dando notas vulgares da convivência. Depois da novela, ou depois do silêncio, nós dois monossilábicos. Ele: Café? Eu: sim. Sigo para a cozinha, sabendo que com a cafeína no sangue, mesmo com a brutalidade da mesmice, abrirei as pernas e ele penetrará sem grande entusiasmo. O esperma escorrendo pelo lençol, o que importa? Abrirei as pernas outras e outras vezes. Disponível para ser engolida, penetrada. Eu querendo gemer, querendo morrer, mas a bala não me atravessou pelas costas. Era necessário o combate frontal. Antecipo meus ouvidos, agora para o ronco cotidiano depois do sexo, depois do escarro; ato de limpar a garganta que ele pratica ao escovar os dentes. Ele escarra. Eu? Olhos fixos no mofo da parede do quarto ou no escuro, tentando convencer-me de que assim é feita a minha história, matéria impalpável que inutilmente tento tocar com alguns dos sentidos. Há sempre algo que me escapa, dentro. Penso em Camille Claudel: Há sempre algo de ausente que me atormenta. O que eu busco? O que foi que perdi? Deixa quieto, está tudo certo, prefira a paz, dizem-me. Ouço essas vozes. Meu lar o campo iluminado, família álbum de retrato. Os filhos no mundo dos sonhos, o marido saciado — afinal eu sempre o alimento com minha boca escancarada, faço café, lavo as roupas sujas, as plantas à minha espera na varanda, digo com sorriso nos lábios: estou bem; também te amo não é exatamente mentira, então por que me desconheço nas frases que digo?: sim, sou feliz; bom dia; boa noite; Deus abençoe. Deus? Vez ou outra, mais uma poesia na gaveta. Ordinária, é certo. Intensa, talvez, mas ordinária como os vinhos que tomamos duas ou três vezes ao ano em companhia de um amigo. Que ninguém lê. Ninguém lê. Outra vez com olhos fixos no escuro encarei a insônia arquitetando palavras, os versos inacabados estarão sobre as contas a pagar na segunda gaveta do criado. E aquela manhã poderia ter sido a gênese da grande rebelião. Covarde, por que não atiraste se eu disse a princípio um não. Foi minha melhor ousadia, antes de seguir a velha estrada. Quase um fim de papo. Quase um fim de linha.

| conto do livro Duelos (Editora Patuá, 2018). |

Eltânia André nasceu em Cataguases-MG, mora em Lisboa. Autora do livro de contos Manhãs adiadas (Dobra Editorial, SP, 2012), dos romances Para fugir dos vivos (Ed. Patuá, SP, 2015) e Diolindas (Ed. Penalux, SP, 2016, escrito em parceria com Ronaldo Cagiano), e do livro de contos Duelos (Ed. Patuá, SP, 2018).