sobre o não-dito, de Luís Roberto Amabile

“Do que você está escrevendo?”

“De um cara.”

“Que cara?”

“Um cara que mata a mulher numa estância hidromineral.”

“Nossa! E como ela morre?”

“Sufocada. Enquanto dormia.”

“É uma noite de chuva?”

“Não. Nos filmes e livros os assassinatos costumam ocorrer em noites de chuva. Cansei disso. Este vai ser num dia de tempo bom. Um dia igual aos outros. Nada de especial. Eles estão no hotel, dormindo. Quer dizer, ela está dormindo. Ele a observa dormir e pensa na vida.”

“E na morte, né. Se ele mata a mulher…”

“É… Claro que ele pensa na morte. Mas acho que mais na vida. Na vida que ele leva.”

“Ele não tem uma boa vida?”

“Sim. Ou não. Depende.”

“Ele está até viajando. Eles estão de férias, não é isso?”

“Sim.”

“Quem quis ir para a estância?”

“Ele. Foi ideia dele.”

“Então.”

“É que depende. Do ponto de vista. Do que você espera.”

“Do que eu espero?”

“Hum…Você, eu. Do que as pessoas esperam.”

“Do que as pessoas esperam uma da outra?”

“Não… Também, mas não só. Esse cara, por exemplo, olha a mulher dormir e se lembra de que alguns anos atrás ele voltava de um fim de semana na praia com os amigos. Passavam por uma daquelas cidades à beira da rodovia. Ele viu uma família atravessando a pista. Um casal e dois filhos. Um menino e uma menina. Todos vermelhos do sol. O cara barrigudo. A mulher também gorda. Os filhos já ficando. Todos gordos e vermelhos, usando as economias para aquelas férias. Um panorama terrível, ele pensou na época.”

“Mas não precisa ser assim. Você pode alugar uma casa mais perto da praia, uma que não precisa atravessar a rodovia. Você pode passar bloqueador solar e evitar o sol do meio-dia. E você pode fazer regime. É mais difícil do que o resto, mas é possível.”

“Sim…Teoricamente é possível. Mas sabe o que é? No fim, mesmo que se faça tudo da melhor maneira possível. Mesmo que se tenha dinheiro para comprar uma super casa numa praia particular; e que se proteja a pele e que seja magro, um dia você acaba numa estância hidromineral com um monte de velhinhos.”

“O seu cara não gosta de velhinhos?”

“Até que gosta; o problema é que são muitos. Sabe? Velhinhos juntos. Sempre. Hotel com diária completa. Sempre sopa de entrada. Os velhinhos e suas conversas de doenças. Ele não pode suportar isso.”

“Ele por acaso é um velhinho?”

“Não, mas ele percebe isso tudo que te falei.”

“Tá, entendi. Ele tem medo de envelhecer e mata a mulher.”

“É que os velhinhos o deixam um pouco deprimido.”

“Bom motivo. O juiz deve aceitar como justificativa.”

“Muito engraçado.”

“Mas é, não é?”

“Pensando bem, acho que ficaria legal finalizar com o cara no tribunal, dando esta explicação sobre a morte da mulher. Adoro quando você me dá ideias.”

“Eu nunca percebo quando estou fazendo isso. Mas disponha. Agora vou dormir. Você vem?”

“Não, vou escrever mais um pouco.”

“Será que é uma boa ideia eu fechar os olhos?”

“Se você está com sono.”

“Com essa chuvinha fica fácil…”

“Então esquenta a cama que daqui a pouco eu vou.”

“Não demora.”

“Só vou terminar a cena da morte.”

“A gente tem de acordar cedo. O banho sulfuroso é às 8h e eu quero tomar café antes.”

“Tá bom.”

“Boa noite. Beijinho.”

“Boa noite.”

Luís Roberto Amabile é professor de Escrita Criativa e Teoria Literária na PUCRS. É autor de O amor é um lugar estranho (Grua, 2012, finalista do Prêmio Açorianos) e O Livro dos cachorros (Editora Patuá, 2015, vencedor da chamada de publicação do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul). Também colaborou com Luiz Antonio de Assis Brasil em Escrever ficção, que a Companhia das Letras lança em 2019.