os livros vermelhos da infância, de Neide Almeida

Jamais esquecerei o dia em que o inesperado tesouro chegou à nossa casa. Entre deslumbrada e incrédula vi surgir, diante dos meus olhos, 16 volumes encadernados de vermelho com letras douradas.

Junto com a enciclopédia a sala ganhou também uma estante: à direita a televisão; à esquerda os livros cuidadosamente dispostos um ao lado do outro, nobres lombadas expostas. No final da elegante fileira, dois volumes com capa creme, detalhes em vermelho e dourado.

Daquele dia em diante nossa vida ganhou novos rituais. Inesperadamente surgiam dúvidas inadiáveis: “quantos são os estados brasileiros?”, “quem foi José do Patrocínio?”, “quais são os sintomas da anemia?” Como saber sem recorrer a um dos imponentes volumes da Barsa?

Então, autorizado pelo pai ou pela mãe, um de nós retirava cerimoniosamente o livro da prateleira, com ares de gente importante, localizava o verbete e lia para os demais, que mal respiravam para não perder nenhuma palavra da enigmática explicação. Olhávamos um para o outro, admirados, mais confusos do que antes. Volume devolvido ao lugar, esquecíamos o vocabulário complicado e voltávamos a brincar no quintal entre bananeiras, goiabeiras, tropeçando no cachorro e assustando as galinhas com nossa gritaria.

Era também uma festa quando alguém batia palmas junto ao portão e pedia para “fazer uma pesquisa”. Novamente um de nós era eleito: identificava o tema, encontrava o livro na estante. O vizinho era convidado a sentar-se à mesa da cozinha, que se transformava em biblioteca. Voltávamos às nossas brincadeiras, sem a costumeira algazarra para não atrapalhar o visitante.

Os rituais se multiplicavam. Entre todos, o meu predileto era o mais profano: aos sábados todos aqueles livros deveriam ser limpos e realinhados na estante. Então, sentava-me ao chão e, enquanto amorosamente tirava a poeira de cada volume, acariciava capas, descobria texturas, folheava os volumes, lia clandestinamente um trecho aqui, outro ali.

Lembro-me também de longas horas dedicadas a copiar verbetes: folhas e folhas de papel almaço, cobertas de letras dolorosamente traçadas para garantir legibilidade ocupavam horas de meus dias de estudante.

Só muito tempo depois eu soube do esforço feito por meu pai para que nós tivéssemos a Barsa em nossa casa. Luxo que ele prolongou por muitos anos, comprando o “livro do ano” que atualizava a coleção publicada em 1970.

Os anos se passaram, eu e meus irmãos terminarmos nossa formação básica e cada um seguiu seu rumo. Minha filha chegou a consultar a enciclopédia, que logo depois foi abandonada e acabou perdendo seu lugar na estante da sala.

Confesso que há muito não me lembrava dessas histórias. Então, surpresa, soube que a Barsa continua viva, convive com o facebook, com o google e a wikipédia. E mais, para minha felicidade e emoção, descobri que desde cedo, sem sequer imaginar, eu já era conduzida por eternos mestres. Imaginem: Antonio Candido, Houaiss, Niemeyer, Milton Santos foram alguns dos intelectuais que recebemos em nossa casa. E como é costume da minha gente, vencida a timidez inicial e as primeiras cerimônias, depois de começadas boas conversas não acabam nunca mais.

Ainda hoje os livros vermelhos da minha infância continuam ocupando o lugar mais nobre de minhas salas internas e, como a criança que fui, continuo fiel aos rituais aprendidos na meninice. Agora mesmo, escrevo sob os olhares atentos de uns tantos volumes, que se curvam na pontinha da estante para espiar se não me esqueci deles ao contar essa história.

| crônica do livro Crônicas memórias (no prelo). |

Neide Almeida é escritora e coordenadora pedagógica do Museu AfroBrasil.