dois poemas de Itamar Vieira Junior

méxico

Tudo que interessava nesta cidade
eram suas orillas
a crescerem em relevo
no que está além
não muito longe do vulcão

“su construcción fue uno de los pocos a resistir intacta”
diz o taxista olhando para o edifício
replicando o terremoto de 1985
quando alguma coisa aconteceu ao sul de meu corpo

uma placa tectônica engoliu outra placa
sete horas e dezenove minutos
chegou por aqui dois minutos depois de surgir no seu epicentro
e as palavras do trabalhador continuam a replicar
na chuva de outubro de 2014
culpa das correntes de ar que chegam do Pacífico

as orillas são gigantes
nelas estão os segredos sussurrados
o que nunca será ocultado
não há tempestade nem abalos
capazes de desfazê-las definitivamente
nada que as transforme em ruínas

um guarda-chuva gentil vem até a mim
naquela mesma noite de chuva
encolho para que nele se abriguem dois
em movimentos que provocam pequenos choques de corpos
e mesmo assim tudo permanece de pé

peso

caminho
e deixo para trás
o peso de um corpo
arrebentando
a terra
vou me despindo
de roupas
palavras
vou me desfazendo
de lágrimas
e sorrisos
corto as unhas
não quero mais nada
a tesoura chega à carne
o sangue
goteja quente
e flui
não seco
nada desejo
do que me deixa
fecho os olhos
e os pensamentos
remanescem
por mais que deseje
desfazê-los
insistentes
desobedecem
apenas caminho
e deixo para trás
o peso de um corpo
esmagando
o que não retorna

Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, Bahia, em 1979. É escritor, geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA). São de sua autoria os livros de contos Dias (Caramurê, 2012), vencedor do XI Prêmio Arte e Cultura (Literatura — 2012), e A oração do carrasco (Mondrongo, 2017), obra selecionada pelo edital setorial de literatura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Dois de seus contos foram traduzidos e publicados em revistas especializadas na França.