the linguagem, de Silvana Guimarães

Perdi a palavra, Ernesto, e estou com aquela dor terebrante no Monte de Vênus. Procuro a palavra certa: que me acenda. Cada um tem a que merece, eu quero a minha. Com pressa. Aquela que me sacie. Se não existir, eu invento. Ou apago a luz e me calo para sempre. Sofro de dependência da palavra. Tem hora que preciso de muitas. De todas. Até das feias. Morro de dó delas, tadinhas, desarticuladas. Não sou de ficar sem palavra, você sabe, Ernesto. Às vezes, troco palavras. Tem dia que escondo uma ou duas. Por isso, entre os sims e os nãos, prefiro os talvezes. Talvez eu amararia você até o fim do mundo. Talvez eu não amarafogasse você nunca mais. Talvez por isso eu seja feliz. Talvez por isso eu não seja. Talvez chova amanhã. Talvez não chova. E a vida vai continuar seca. A vida: eu não. Estou pagando a língua. Está me ouvindo, Ernesto? Se sim, vou logo avisando que isso não é nenhum tratado filosófico. Nem homenagem. É só outro modo de falar de [vai ter de adivinhar]. Vamos trocar de palavras. Você me dá a sua. Eu te dou à luz. O que há de encantamento em mim não é ser um animal que pensa. Não se iluda, Ernesto. Eu sou um animal que fala. Por vezes, sem pensar, o que tem lá suas vantagens. Falo. Seu falo, sou capaz de latir. Por devoção também escrevo. Espremo a palavra e deixo sair seu sumo. Até escorrer pelos cantos da boca, descer pelo queixo afora pescoço abaixo, virar um laguinho bem no meio dos meus peitos que você morde, cada vez que me fode. A língua é o chicote do corpo. Língua fala: língua paga: estou pagando a minha. Um elo entre mim e a serpente. Aquela do primeiro pecado. Eu disse que estava falando de [adivinhou?]. Eu disse que nunca mais. Não se pode enganar a palavra. Quem tem boca vaia Roma. Quem tem língua vai à lua. E pode não voltar: estou pagando. Vem, Ernesto. Eu te conjugo, prometo, meu maremoto. E sofreremos da mesma vida até quando o mundo for outro mundo. Vamos catar palavra bonita feito frevo visgo abismo naufrágio. Vem me arrancar dessa ansietude. Estrelas estão tremeluzindo no céu da minha boca. Ó que coisa linda, Ernesto, vem. Metalinguagem. Tenho gana de você, meu bem querer, vem depressa. Na calmaria, em desespero, vem. Ando tão esganada. Viu, Ernesto? A nós dois basta essa imensidão de urgências. Agora, chupa essa maçã. Chupa. Assim. Devagar devagar devagar.

Silvana Guimarães (Belo Horizonte/MG). Socióloga e escritora brasileira. Organizou e participou de algumas coletâneas, entre elas, Hiperconexões — Realidade Expandida Vol. 2 (Org. Luiz Bras, Patuá, 2014) e 1917-2017 — O Século sem Fim (Org. Marco Aqueiva, Patuá, 2017). Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas. Lança seu primeiro livro, de poesia, em 2018.