chapeuzinho vermelho, de Nara Vidal

Só depois que o pássaro se soltou do meu dedo, eu em gritos e histeria, pude ver que se tratava de um corvo. Preto feito o que aprendi sobre mau presságio. É sorte, das boas, eu insistia no eco da cabeça em desordem pela superstição que pousara em mim.

Antes da coisa do corvo, eu havia decidido cortar caminho e adentrar uma floresta, o meio do mato. Não pra chegar mais rápido aos correios. A razão era era bonita: eu queria.

Queria ver as árvores, evitar olhar carros que não reconheço. Venho aprendendo sobre árvores, seus nomes e suas formas. Não conheço marca de carro. De nada me serviria uma brincadeira particular de advinhação. Marca, ano de fabricação. Inutilidade. Cortar o caminho não pela praticidade do atalho curto. Não vale a pena arriscar caminho novo pela praticidade das coisas. A aposta na beleza e o direito de ter o desejo valem o que ainda é invisível, o imaginável.

Mas que interessante eu me contentar com tão pouco. Nem tão linda era assim aquela floresta. Já vi melhores. Era estranha e tinha ar pesado. Os pássaros que voavam alto em cima da minha cabeça, em cima das árvores até, eram pássaros mortos de canto falido. Não fosse esse barulho de morte, o lugar seria puro silêncio. Nem uma casa sequer por quilômetros. Pensei na ridícula da Chapeuzinho Vermelho. Menina tola e tonta que, como eu, arriscava o vazio e o perigoso pra evitar o caminho de sempre atrevendo-se a encontrar lobos ao invés de pedras e flores pela estrada afora. Sozinha.

Saquei o telefone e fiz contato com um amigo. Pedi que conversasse comigo até eu sair daquela atmosfera pesada. Contei que um pássaro preto tinha pousado na minha mão enquanto eu amarrava os cabelos num coque. Ao balançar agitadamente as mãos e soltar gritos de medo e aflição, vi que o pássaro era um corvo. Não só mau presságio, mas o bicho rolou pelo chão de terra só pra esbarrar numa pedra e morrer, bem depois de me tocar. Minha mão ficou contaminada por qualquer falta de sorte que se seguisse dali em diante. Afinal, depois de tocar minha mão, tocou-lhe a morte, embrulhou suas asas e fez dele um silente.

O que eu queria fazer entre as árvores quietas e os pássaros mortos que rodopiavam o ar em cima de mim, era andar sozinha, sem companhia, olhando minha sombra. Precisei desligar o telefone com o amigo. Ele tinha uma reunião, me aconselhou não dar sopa pro azar. Andar sozinha era dar sopa pro azar. Estou aqui, arrico e desafio esse silêncio do qual eu desconfio. O corvo morto já estava longe, passos longe de mim. Minha mão seguia maculada pela morte que o corvo carregava exatamente antes de me tocar, desesperado procurando um chão pra se acabar de vez. O repouso final. Não se morre voando. A morte é o chão, é raza, é a superfície, é o que faz de todos nós iguais. É preciso estar deitado quando desaba a morte em nós, falidos, pesados, um conjunto de carne ou borracha, tanto faz, morremos.

Dois olhos verdes se cruzam com o meu. É um homem. Lá do alto de uma clareira ele corta lenhas, corta com o machado qualquer coisa que imagino ser lenha. Nossos olhos se encontram e eu finjo desdém. Eu finjo desdém porque tenho muito medo do homem. Tenho medo porque o privilégio é todo dele. É ele quem pode vir me pegar, correr atrás de mim se assim quiser. Sou eu a presa, o corvo prestes a morrer porque ele não tem só um machado ele pode estar sozinho, ele pode estar sozinho, ele é livre, livre. Eu tenho que correr, me esconder, fingir tranqulidade, gritar, telefonar para um amigo. Eu preciso me proteger. Mesmo que o homem seja só um lenhador e eu seja só uma mulher de meia idade com contas e preocupações que quis pegar um caminho diferente.

Ensinamos e repetimos há tempo que as mulheres devem se proteger, devem se comportar, não devem andar sozinhas em becos e mato. Arrancam-nos as asas e os pés, tiram proveito do medo que esse desamparo nos causa. Estamos sozinhas.

Talvez o homem do machado esteja sentido medo de mim, mas quem busca uma saída do deserto sou eu. Pássaros mortos me acompanham com seus poios horrorosos até que eu avistar uma casa. As casas ainda estão longe. Corro. Passos me seguem. Pedras, escorrego, caio, me levanto. A falta de dignidade. Agora eu sou um animal sendo perseguido puramente pelo desamparo e por estar sozinha. Risco, chapeuzinho vermelho, lenhador não vem ajudar, lobo, abutres comem carniça, morte, corre, não tropeça, corre, passos, respiração afegante, passos determinados, escapa, grite, cale-se, silêncio.

Os lobos não são o maior perigo. Os pássaros, os abutres é que devem ser evitados. Existe a possibilidade de olharmos os lobos nos olhos. Não voam. A estratégia é de quem nos vê por cima.

Da janela do meu quarto eu, segura e salva, olho a floresta que eu não posso mais frequentar. Vejo rodopiar em voos e danças, abutres, aves de rapina. No Tibet há o funeral celeste. Os corpos são desmantelados por quebradores de ossos e deixados no alto de uma montanha para que sejam comidos por abutres.

Ouço os gritos e o canto dos pássaros da morte. São ruídos altos. Pena. Esconderam o grito da mulher, sempre uma mulher, violentada e morta, estuprada e desossada pelo abutre que fugiu. A polícia vem colocando papéis debaixo das portas da vizinhança com a descrição da ave de rapina. A mulher tinha quarenta anos, andava sozinha. Deu no noticiário. Daqui de cima, vejo o que exergam os pássaros, pareço até estar no céu, sei que não fui eu, mas era como se fosse. Se tivesse sido, não sentiria mais. Mortos não sentem. Estou bem.

Menina de sorte a Chapeuzinho Vermelho de encontrar um lenhador bom. Poderia ser um homem mau, mas ela teve sorte. A fé na sorte vem nos matando há muito tempo. Abutres rodopiam pelo ar procurando carne fresca. Sempre acham. Não estão em exitinção.

Nara Vidal é mineira de Guarani. Autora de vários infantis, tem três títulos adultos: Lugar Comum, A loucura dos outros e Sorte. É formada em Letras pela UFRJ e tem um mestrado em Artes e Herança Cultural pela London Met University. Premiada com o Maximiano Campos na categoria contos e duas vezes com o Brazilian Press Awards pelo seu trabalho em Literatura, é colaboradora de diversas publicações. Mora na Inglaterra desde 2001.