primeiro capítulo do romance ‘Um dia toparei comigo’, de Paula Fábrio

capa_fabrioHoje o primeiro velhinho morreu. E eu começo a envelhecer. Não eram coisas boas para se pensar. Mas não havia escape. Seu Odair morrera. Uma pneumonia sem cura, sem velório.

Meu voo para Madri e o enterro do lado de cá do Atlântico. Ninguém sai ileso. Malas arrastadas no corredor, um cartão de pêsames escrito às pressas e, depois, depois a fuga.

Não, nada a ver com seu Odair. Nem com o edifício Richard Wagner, nem com o quinto andar. Tirava férias; sim, estaria livre de olhares vigilantes, de ser espreitada e escarafunchada a cada percurso de elevador. Livre da opressão de ter vizinhos e família. Livre de perguntarem, essa aí que passa o dia na escrivaninha e não se interessa pelos preços da feira, essa aí que divide o apartamento com a outra tal, essa aí, essa mesma, do que vive? No entanto, buscava me desvencilhar da memória, do horror de dizer ao médico: eu bancarei a morte de meu pai.

Viajar é uma forma de sonhar. Também um modo de fugir. Um velho truque para ser outro. Ou na verdade, para ser você mesmo.

Quando foi a última vez que fui eu mesma?

Nesse estado de espírito, em fuga das obrigações morais, das lembranças acerca das mortes que me rodeiam, descobri Hemingway. A bordo do avião, comecei a ler Paris é uma festa. Mas não seguia para a França. Dessa vez não. Dessa vez as coisas sairiam do prumo. Ou melhor, descobriríamos que não existe prumo, senão o seu simulacro em forma de sociedade.

E assim desembarcaríamos em Madri, na hora gélida. Madrugadas de primavera teimam em nos avisar, calma lá, isso aqui não é o Brasil, isso aqui é cortante e escuro e sombrio, o saguão vazio, dezenas de esteiras, e só duas malas rodando sem parar. As nossas malas.

| primeiro capítulo do romance Um dia toparei comigo (Editora Foz, 2015). |

Paula Fábrio é escritora, formada em Comunicação Social pela Faap e mestre em literatura pela Universidade de São Paulo — USP. Ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura de 2013 na categoria autor estreante com mais de 40 anos, com seu romance Desnorteio. Em 2015, publicou seu segundo romance, Um dia toparei comigo (Editora Foz).