bombardeio, de Liliane Prata

A casa não é como ela imaginava. Mas pouco, muito pouco, tem sido como ela imaginou um dia, e seguir pelo corredor pisando o chão que enxerga, e não o chão que acha que quer ou deve enxergar, é mais uma tentativa de ajustar as retinas à paisagem e não a paisagem às retinas. O fim dos passos dá para uma edícula; parado à porta, um senhor a cumprimenta sem simpatia. Isso a incomoda um pouco. Ela sempre valorizou muito a simpatia.

— Você pode se sentar aqui — ele aponta uma cadeira preta articulada, parecida com uma dessas cadeiras antigas de dentista.

Ele deixa o cômodo e ela sente medo. Ela se lembra de Emily Dickinson: Eu gosto da expressão da agonia porque sei que ela é verdadeira. Mas e a alegria, não seria verdadeira? De qualquer modo, é assim que anda vivendo ultimamente — agonizando, porém, sentindo que não está fingindo nada para si mesma. Está se reconhecendo quando se olha no espelho.

Uma escrivaninha, uma jarra com água, livros que parecem ter saído há muito tempo de circulação. Uma pilha de papéis ao lado de um vaso. Flores amarelas. Pela janela aberta, entra mais silêncio, um silêncio vindo do jardim, um silêncio de outra ordem. Na parede da frente, um quadro com uma imagem de Jesus Cristo. Jesus está sereno, à beira de um rio, conversando com crianças. A imagem não é familiar. Por que não está sangrando na cruz? Ela bota a mão no peito acelerado. Não sabe o que vai acontecer, mas deseja continuar ali, e isso já é alguma coisa. Foi parar naquele endereço muito mais por desespero do que por escolha, e o desespero já a havia colocado em situações sombrias, mas também já a havia tirado de situações sombrias — nunca se sabe o que esperar do desespero. O fato é que, quando sua amiga lhe contou sobre aquele senhor, sua voz saiu antes de qualquer preocupação: quero ir lá. Quero ir lá! “Ele dá aula de física na universidade federal, ele é sério”, a amiga tinha dito. “Você só não pode sair contando pras pessoas, porque acho que ele perderia o emprego.”

— Você precisa, como todos nós, parar de se identificar tanto com o sofrimento — ela ouve de repente.

O senhor está se aproximando dela com fones de ouvido e um par de óculos pretos.

— Você vai ouvir uma história diferente em cada ouvido. Não procure entendê-las. Elas estão apenas inserindo novas crenças na sua mente por meio de metáforas. O melhor jeito de aprender é com metáforas.

— Olha, interessante, uma bela defesa da literatura, essa. Eu…

— Em vez de ouvir “Vença como esse rapaz”, por exemplo, você ouvirá: “O rapaz está subindo a escada. Ele sobe os degraus com serenidade”. Com os óculos, você verá luzes coloridas alternadas, piscando. É como se fosse um bombardeio de cores. Isso a ajudará a não dispersar. Você não precisa entender o que está sendo dito, mas não pode dispersar.

Ele ajeita os óculos e os fones nela e sai. Ela sorri sem perceber. E então rosa, vermelho, roxo, laranja. Uma moça está em uma floresta, conversando com um cavalo, e depois recebendo a visita de um extraterrestre. Verde, cinza, azul escuro, azul claro. Um rapaz pula para cima, o céu é um oceano, ele mergulha, encontra belos peixes. Ela se concentra às vezes em uma narrativa, às vezes na outra; na maior parte do tempo, não entende nada. Cerca de dez minutos ou duas horas depois, as cores e as histórias acabam. Mãos tiram os óculos e o fone.

— Como você está se sentindo?

— Muito bem. Mas muito cansada.

— Ótimo. Vá para casa e durma.

O senhor está sentado na escrivaninha e fazendo anotações quando ela caminha pelo corredor sem pensar em nada. Ela chega em casa às dezenove horas. Deita-se pensando em tirar um cochilo, mas dorme até às sete da manhã.

Sonhou que precisava se proteger de um bombardeio de cruzes.

Liliane Prata é jornalista e escritora. Autora de Sem Rumo (Editora Planeta), entre outros livros. Mantém um canal no YouTube, Canal da Lili.