três poemas de Tomaz Amorim Izabel

I.
Quando as bombas tiverem caído
e as marés tiverem subido
quando não houver mais telas
cassetes, colunas
quando o descanso for reencontrar
com as costas no mato
outras constelações no céu
— Constelação de porta-aviões,
constelação lata de ração,
quando mesmo as pupilas igualarem
o azul do céu
e se nunca mais ouvir seu nome doce
ainda assim falar, recitar
lembrar e compor com a boca
canções sobre nossos erros e perdas
e também promessas

II.
quando o mundo parece mais perto
sem que fique excessivamente pixelado
por onde eu começo,
uma rua famosa, ainda não visitada?
mandei um beijo apaixonado
para uma mulher que por poucos minutos não conheci
se quiserem falar através de mim falem
que traduzirei os coaxados e zunidos como conseguir
o motorista carrega seu carro como um filho pelos buracos
o ar-condicionado é seu próprio respiro
ainda assim, sua camisa e seu pescoço suam
Não há nada de errado mas
os bichos-da-seda expelem seu próprio cobertor
um caranguejo coloniza um balde de plástico
e nós correndo para lá e para cá
por mais que haja escadas rolantes
é difícil lembrar o lugar em que se deixou
em que ficou combinado nos reencontrarmos
com aquele lugar mais ameno

III.
shithole
câmbio, aqui é do fim do mundo
rádio pirata bioeletrônica
é aqui que se erguem topetes e pirâmides
aqui é onde a via láctea fica pequena
e se expande na pupila dilatada
colunas da criação desfilando
em meio aos répteis colossais
quando degustamos nossos chás
e tocamos as órbitas planetárias como harpa
e viramos também seu instrumento
a chuva que baba sobre a pele empapada
banhos de folhas, sim
as mais belas aves sobre nossas cabeças
segredos de sementes revelados por nossa mão
plantações e ninhos e pomares
escondidos dos satélites artificiais
banhados pela lua e vênus e avestruz
aqui onde se bebe o sangue jorrando dos matos
e galopam sem cela os trovões nos céus desabitados
engenharia que pariu a anaconda e o dromedário
favelas e aldeias, clústeres de moradas
almanaques de todas as filhas da diáspora
e cópias aprimoradas, hackeragem
revelando tantos sorrisos secretos no duro rosto do um
nunca imitável na doçura dos ossos da mão
riacho leve em nossos rostos
nunca as histórias das viagens oceânicas em canoas submarinas
cada pequeno orixá escondido no seio das avós
sim, a elegância contorcionista das línguas e conceitos
sim, o rosário das dobras do cu pelas línguas
sim, estuário, delta dos presentes que se repetem
até o futuro

Tomaz Amorim Izabel, 30, é poeta, tradutor e doutorando em Teoria e História Literária na USP. Mantém um blog onde publica a maior parte de sua produção: Blog: [link].