fossa das marianas, de Myriam Campello

capa_campelloConto do livro Palavras são para comer (Editora Oito e Meio, 2017)

13 de agosto
Amor da minha vida, te amo te amo te amo te amo. Esqueça tudo que já ouviu sobre a frase, estou inaugurando uma nova forma de amar. O que sinto é tão devastador que esfolaria de bom grado minha pele para dela fazer um casaco macio com acabamento de luxo e te abrigar. Lembrei de Chanel dizendo que uma roupa de corte perfeito fica em pé sozinha, e era com algo assim, a perfeição, que eu gostaria de envolvê-lo, só que usando um tecido pessoal, e não sei de algo mais pessoal e íntimo que a própria pele. Queria ser perfeita para você, meu amor, de forma completa, irretocável. Acabo de ler que a Fossa das Marianas, no Pacífico, é o local mais fundo do mar, onze quilômetros para baixo. Esse abismo nada é perto daquele em que mergulhei de cabeça. Todas as palpitações do meu corpo, cada sístole, cada diástole, pertencem a você. Vivo num estado de êxtase do qual não consigo sair — nem quero. Inteiramente tua, Songa.

14 de agosto
Amor meu, sinto-me devastada pelas horas que nos separam, ainda bem que daqui a alguns dias estaremos juntos ou não sei o que seria de mim. Não durmo mais, e a comida se tornou algo de que me esqueço com frequência, emagreci dois quilos, o lado bom é que estou bonitinha para você. Batalhei muito para conseguir esses dias nossos, nem acredito, o Encontro de Bibliotecários foi um presente dos deuses, devo ter crédito no céu para merecer isso. Estou levitando de felicidade, tão incendiada que tenho medo de só restar cinzas de mim (depois conto em detalhes meus incêndios súbitos rsrs). Só faço trabalhar e sonhar com o centro de minha existência — você, amor. Quem me vê acha que sou apenas uma profissional séria, esposa do prefeito. Mal sabem que não sou esposa dele e sim tua mulher. Te beijo como nunca. Songa.

16 de agosto
Amor querido: vou te processar, você está atrapalhando demais o meu trabalho, não é possível. A perturbação é tanta que hoje me pediram um ensaio sobre a Coroa portuguesa e em vez do livro coloquei o celular na caixa de entregas! Ando totalmente aturdida com o nosso encontro. A vida é mesmo louca, jamais imaginei que pedir uma informação no único momento em que saí sozinha do hotel provocaria esse tsunami. Não ter senso de direção é muito chato mas agora agradeço de joelhos o defeito, há males que vêm para o bem, as coisas têm muita força quando precisam acontecer! Quanto ao meu apelido, só mamãe nunca o usa. É sempre “Sonia Maria” chova ou faça sol. Sobretudo se chove. Quando se irrita comigo meu nome vira uma chicotada! O resto do pessoal usa o Songa desde que sou criança. Me chame como quiser, amor, que eu atendo. Estou aqui para isso. Adoro qualquer nome que me dê — sobretudo os mais secretos. Tua, sempre, Songa.

5 de setembro
Amado meu, já não sei dormir sem o calor de teu corpo, obrigada pela semana que não me sai do pensamento. E chega de mentir, quero gritar para todos que te amo. Não me dou bem com essa distância, cada dia longe de você me dilacera de angústia. Se alterei muito a sua vida, a minha também está irreconhecível, mas não é isso que o amor faz, uma revolução? Na verdade teu casamento já tinha acabado há séculos e os filhos, mesmo pequenos, você não vai perder. Crianças da idade deles são muito adaptáveis e logo esquecerão tudo. Ana Paula anda implicante comigo, não entendo por quê, afinal é adulta e não me meto na vida dela. Ainda não falei com o Alcides sobre o divórcio, aguardo o dia certo, ele também vai acabar achando que é o melhor para nós. Espero que se eleja deputado federal na próxima eleição, assim desgruda definitivamente de mim. A situação política daqui é nebulosa, os fazendeiros vendem caro seu apoio. Mas isso é problema do Alcides, não meu. Em breve, amado, faremos todas as viagens que planejamos, vai ser um sonho concretizar tanta coisa boa. Mal consigo esperar. Te amo, Songa

17 de outubro
Meu querido, não sei como te agradecer por vir morar aqui quando tudo estiver superado. Não é a mesma coisa que São Paulo, claro, mas no fundo todas as cidades são iguais quando se ama. Felizmente você entendeu como essa terra é essencial para mim desde que um membro da família a percorreu de burro há trezentos anos, deixando sua marca histórica pelo caminho. Se preferir um lugar mais tranqüilo que a capital podemos morar em Brejo das Flores — bonita e também distante de Prado Verde. Você vai adorar o ar puríssimo de Brejo. Por enquanto é melhor não provocarmos ninguém, para quê? Há outras cidades também com grande qualidade de vida como Pinheirinho, Pinheiral e Paraíso das Antas. E quando sentir falta de Higienópolis damos um pulo em São Paulo e faremos tudo que você quiser. O importante é viver como um casal. Daqui a poucos meses vamos concretizar nossos sonhos, ir a Paris juntos, passear de mãos dadas em público, pegar um cinema, quero te levar a todos os lugares de que te falei e mais alguns que nem imagino. Tua Songa.

5 de dezembro
Querido, como a adaptabilidade é um dos atributos da inteligência, você logo se acostumará ao novo emprego quando vier. Sei como se esforçou para conseguir isso, os pauzinhos que precisou mexer, mas toda empresa é valorizada com um profissional brilhante na equipe. Sim, podemos aguardar uns meses, afinal já esperamos tanto, esse tempo consolidará cada vez mais nossa união. O Natal é uma época terrível para falar em separações, você sabe, então por respeito a todos vou deixar passar esses dias. Mas logo depois porei o assunto em pratos limpos. Estou mandando um Pluto de pelúcia para a Vivinha e uma Ferrari amarela miniatura (reprodução perfeita) para o Joca (é grande demais para ele engolir, não se preocupe), envio para o seu escritório. O meu amor por você os abarca como se fossem meus filhos. Tua Songa

7 de janeiro
José, meu querido, espero que os dias de férias tenham feito bem às crianças. Não tenha ciúmes de mim, por favor. Estamos acima dessas coisas. Já devia saber que meu compromisso com você vai além da vida. Não devemos ser ásperos um com o outro, fico arrasada quando brigamos. Essas discussões acenam com dúvidas onde só há certezas. Te beijo, Songa

5 de abril
Querido José, não entendo essa pergunta, é claro que te amo. Ainda não se convenceu disso mesmo depois do fim de semana em Brasília? Cobranças são contraproducentes e nos fazem sofrer à toa. A casa inteira pegou resfriado, corro de um para o outro com o termômetro, uma preocupação. Só estou esperando o momento ideal para contar ao Alcides, sei que isso vai cair como uma bomba, são todos ultraconservadores por aqui. Prado Verde é assim, provavelmente por suas ligações com a terra. Mas o que são esses obstáculos perto do meu amor? Tua Songa

2 de maio
José, sei que modificou totalmente sua vida (eu também a minha, mas isso você não vê). O maremoto que nos atingiu me fez analisar cada tijolo dos meus dias. Fico magoadíssima por você não reparar o quanto tenho lutado para aplainar o terreno, encontrar o momento certo de enfrentar o Alcides (já andei insinuando sobre a separação mas parece que ele não entende, que sujeito burro!). No entanto a hora de nos livrarmos dele está próxima, assim que passar o Dia das Mães vou abrir definitivamente o jogo. Beijos, Songa.

19 de junho
José, não precisa repetir o que eu disse, me deixa nervosa. Tive um insight hoje: o problema é o excesso de complexidade que às vezes me engole com tantas facetas. Gostaria de ser mais simples mas infelizmente não sou. Minha sensibilidade atrapalha, há complicações para onde quer que eu me vire. E por mais que anseie pela inteireza, as circunstâncias me enredam num abraço mortal. Sonia Maria.

15 de julho
José, talvez você tenha a impressão que estou te largando no meio do oceano, sem um barco à vista nem visão de terra, mas não é nada disso. Cheguei à conclusão que para mim será melhor ficar em Prado Verde, minha família veio para cá com o primeiro jumento há trezentos anos, tenho vínculos, contas a prestar à sociedade. Sei que não vai entender, mas tenho certeza que encontrará outro emprego aí mesmo em São Paulo, as firmas estão sempre à procura de um homem experiente, apesar da crise. Talvez com um salário menor mas isso deve ser temporário, a situação do país acaba entrando nos eixos. Seja como for eu o levarei sempre na memória como um farol me iluminando nas trevas. Sonia Maria.

1 de agosto
Nunca disse que era perfeita. Alcides e eu estamos casados há muitos anos, e sinceramente o que você deseja está além das minhas forças. Não consigo te seguir, é tortuoso demais. Ninguém de Prado Verde se divorciou até hoje e te digo com honestidade, não quero ser a primeira. Talvez você possa reatar com a Izildinha, felizmente ela tentou suicídio mas não conseguiu (cá entre nós, se matar duas vezes no mesmo mês é totalmente histérico.) Daqui a alguns anos riremos disso tudo como velhos marinheiros que passaram tremendos perigos juntos. Bjs, Sonia Maria

13 agosto
Você é de uma crueldade espantosa quando decide, um verdadeiro gênio do mal. Como posso explicar alguma coisa com essa enxurrada de críticas contra mim? Fico sem fôlego. Além disso não tenho tempo, preciso arrumar as malas porque vou com o Alcides para Cancún amanhã. Parece que é lindo.

Myriam Campello (Rio de Janeiro) é romancista, contista e tradutora brasileira. Publicou Cerimônia da Noite (romance, 1971), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia para romances inéditos, Sortilegiu (romance, 1981), São Sebastião Blues (romance, 1993), Sons e Outros Frutos (contos, 1996), Como Esquecer, anotações quase inglesas (romance, 2003), adaptado para o cinema no filme homônimo dirigido por Malu de Martino, Jogo de Damas (romance, 2010), Adeus a Alexandria (romance, 2014) e Palavras são para comer (contos, 2017).