eles não moram mais aqui…, de Ronaldo Cagiano

02 conviteRonaldoCagianoLerDevagarVoltei para casa com a sensação
de uma absoluta solidão.
“O túnel”
Ernesto Sábato

…, mas aparecem em todos os finais de semana, de bus, van ou metrô até chegar ao outro lado da cidade, a imensa ilha cujo mar é o céu infinito, pássaro nascido da prancheta, com suas enormes asas abertas sobre o cerrado. O sono despertado pelo interfone, eu ali, semi-acordado da madrugada que ainda me prostrava com seu chumbo na manhã ociosa. Eles, pontuais e esperançosos, esperavam o meu abraço, o beijo, uma festa nos olhos conspurcando o endereço inóspito. Antes de entrarem, apesar de terem a chave, pressionavam a campainha num toque prolongado, acho que o pai ainda está dormindo, Maninha, talvez por temerem invadir a privacidade, era sempre bem cedo, como se não quisessem perder um minuto do direito à visita, essa palavra burocrática e cerceadora, eu percebia pelo olho mágico a face (e)terna, deve estar se vestindo, ela falava ao Dudu, eles vinham para o lugar que um dia foi deles, e meu sorriso tentava empanar a face ainda desfigurada, a garganta congestionada por hálito e emoção, a impossibilidade de tantas perguntas, apenas os filhos ali — um casal, mocinhos já — e não se lembrariam mais dos primeiros choros, as cólicas abreviando as noites, seus corpos buscando afagos enquanto a febre latejava, e agora são eles numa sondagem silenciosa e aflita com um olhar-escafandro penetrando o insondável em mim, bateia no aluvião de minhas tristezas, mergulhados mais fundo do que nunca numa água desconhecida, mas o que são os filhos senão o barco que lançamos rumo ao mar existencial, lá onde não podemos mais chegar e alcançá-los, onde a fúria da vida impõe suas fadigas e descaminhos. Sim, fomos filhos um dia, mas em que águas me lancei, que a mesma distância entre mim e seus avós parece multiplicada entre nós, agora esses corpos frágeis, tão cedo carregando o peso da realidade? Acho que jamais soube o que era tudo isso, ainda mais agora, longe da rotina de febres e choros ensurdecendo a casa, quando esse outono consterna a cidade com a prostração das cores, a janela é um convite para uma fronteira que não conheço, os olhos apertados, não querendo ceder lugar às lágrimas, procuram, procuram, procuram e, extenuados, só pescam lembranças no lago turvo de um tempo que a gente não reconstrói mais, pois vai embora como a vida, como vão a poeira e a folhagem seca sob o telhado, escoiceadas pelos ventos de dezembro, essa dor maior que o crime de Deus existir e não fazer nada, esse acúmulo de epidermes mortas, jazigo de guerras conjugais, e amanhã é domingo, pé de cachimbo, (e as cidades morrem aos domingos, como morre nosso espírito calejado de ausência e silêncios), o apartamento está vazio como habitada por fantasmas está a Esplanada dos Ministérios, esses inexpugnáveis caixotes que albergam tantos segredos, e quando eles entram, são as perguntas de sempre, são os laços rompidos, são seus olhares inertes sobrevoando os cômodos, esquadrinhando os retratos sobre a cristaleira, é a alma um pomar de lacunas e lá embaixo é o asfalto, o burburinho de carros, as superquadras e seus blocos residenciais (pombais, que o velho Euclides, meu professor, um dia inquinou e que detestava habitar), enfileirados como num dominó, as cigarras de agosto a plenos pulmões impondo pregão de seu canto histriônico, e a urgência de tudo nas coisas, é o que sobra, é o que miro na estante com a foto da primeira viagem à praia, ele grudado às minhas pernas, ela no colo, ali estávamos, no parapeito do grande belvedere do Cristo Redentor que dava para a Baía de Guanabara, e já não são aqueles dias que vejo, é o pranto reprimido que se dissipa com o barulho do caminhão de gás se enviesando sinfônico pelos setores povoados de siglas e sua vinheta imutável, a respiração um pouco mais forte, ah!, a água que eu havia esquecido esquentando na chaleira, tudo parece imperfeito, eles me beijam quando chegam, acomodam-se solenes e calados na velha poltrona como se desconhecessem o lugar, o dia livre, os móveis, os passeios, enquanto as bonecas hibernam numa gaveta da cômoda travestida em museu de entulhos, o autorama enguiçado (lembro-me do dia em que ele, brilhando como um cometa, o recebeu de minhas mãos — É meu, pai?) denuncia que a existência acumula perdas e riscos além das mentiras e ofensas na Vara de Família — tudo agora parece acabar antes de começar, o abraço deles, demorado e insubstituível, ainda penetra minha consciência como um punhal em brasa, o quarto os espera como sempre, como se nunca tivessem saído de lá e voltassem de férias, mas os cadernos, suas caixinhas de pertences, a mochila, as roupas espalhadas, as folhas com desenhos coladas na parede, os deveres por fazer — onde estão? Braços apascentam a saudade e eu percebo que a realidade, imperturbável, sequestrou suas faces de criança, depositando feixes de angústias. A casa é a mesma, mas a solidão imperativa os recebe como estranhos. Estrangeiros na própria terra, já não reconhecem os desenhos a lápis de cor que ainda adormecem nas paredes do quarto da empregada. Onde andará dona Zelina, que ensinou-lhes em nossa ausência as muitas coisas da vida, as sofrências do ver? Há uma sombra pretérita escurecendo os cômodos. Como a pergunta-lâmina que não tem resposta, apenas uma lágrima esconsa. Pai, o que é saudade? Ainda me lembro de quando ele a me cravou, à queima-roupa. E nunca imaginei que um dia seria mais difícil sentir do que explicar. Naquele tempo os passeios ao Jardim Zoológico se revestiam de tamanha aventura, como se juntos flagrássemos o reino da fantasia que nos isolava do mundo e da fugacidade dos infortúnios que a vida prepararia sem postergação nem piedade, eles ainda tinham seus heróis enquanto os meus não sobreviveram a 68 e a plena efervescência da vida em seus poros, a vida, a vida, a vida com suas garras bisonhas é o que nos cabe, quando tudo já é sem a ilusão e a gente vai matando um leão por dia, nas entressafras de dores inesperadas, de inventário do pouco que tínhamos. Agora é mais um fim de semana igual a tantos outros, tudo se repete como as folhas exiladas que a cada outono atapetam o gramado, como as caminhadas à beira do Lago Paranoá, os lanches após as sessões vespertinas nos cinemas do shopping, tudo imutável feito o que há de compulsório nas agendas de trabalho, já não há mais o gibi, nem os brinquedos espalhados na sala ou os desenhos trêmulos riscados a batom no espelho do banheiro (primeiros esboços de sonhos). O sol insiste em esconder-se lá, dominado por nuvens negras que caluniam a paisagem nessa estação sem graça atropelada pela intransponível secura do Planalto Central, mais suportável que a que instaura o deserto íntimo, soberana e indesviável sentença que parece nunca apartar de nós quando o rio bêbado do tempo, veloz e pleno de fúria, irrompe em nossas vidas como as tantas enchentes de verão que invadiam tsunâmicas minha infância em Cataguases. E esse rio imóvel entre paredes não conduz a lugar algum, apenas reproduz a cada domingo o ritual dos rostos colados que se afastam antes de recriarem a soberania de outras despedidas, enquanto os vejo pela janela se dissipando no altiplano rumo à parada de ônibus, até se transformarem num ponto minúsculo ao longe, um cisco na paisagem do horizonte longínquo.

Agora o apartamento é um sarcófago que hiberna outras vidas (terão vivido a minha exaustão? carregam o minério bruto de outras frustrações? dão ouvidos à vizinha evangélica, assassina da gramática, palhaçando sua fé bisonha pelos corredores a bordo de uma bíblia surrada e seus cabelos de espantalho?), na vasta planície com seu vago teor de nuvens, o mofo ampliou seus mapas no terraço do condomínio; as janelas — há tempo fechadas — denunciam o imponderável que há nas coisas. E o olho mágico vislumbra outras criaturas, mas nele resiste a presença invisível de seus rostos, a substância clara de suas almas. Brasília já é um deserto onde só resistem as caliandras.

Ainda me lembro daquelas mãos albergando o afago pressuroso, guardando para o último minuto a despedida formatada no adeus definitivo que não muito longe dali o tempo se encarregaria de um dia amalgamar. E os chicletes coreografando estruturas no ar, a última lembrança da estação deixada nos degraus da escada, uma rodovia desavergonhada implementando o longo sono.

E um ronco do motor, uma trava, uma cancela, o asfalto molhado, os olhos inchados, um gigante ruminando a alma e no fundo, no fundo do cerrado, onde tentei enterrar minhas dúvidas, a dispersão das cinzas em que se converteram as estrelas de seus olhos.

Ainda me lembro: eles apareciam todos os finais de semana, de bus, van ou metrô até chegar ao outro lado da cidade, a imensa ilha cujo mar é o céu infinito, pássaro nascido da prancheta, com suas enormes asas abertas sobre o cerrado.

Ainda me lembro, de como se despediram da última vez, minúsculos pássaros em fuga.

Ronaldo Cagiano é mineiro de Cataguases, viveu em Brasília e São Paulo e reside atualmente em Lisboa. É autor, dentre outros de, Dezembro indigesto (Contos, Prêmio Brasília de Produção Literária 2001), O sol nas feridas (Poesia, Ed. Dobra, Finalista do Prêmio Portugal Telecom 2012), Observatório do caos (Poesia, Ed. Patuá, 2016) e Eles não moram mais aqui (Contos, Ed. Patuá, Prêmio Jabuti 2016).