feminicídio, de Rodrigo Novaes de Almeida

Exclusivo na Revista Gueto, conto inédito que dá continuidade aos temas do livro Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018).

Safada. Sumiu por dez dias e eu procurando ela como louco, nossa filha ligando pra todo mundo, fui bater nos hospitais, no IML, na puta que pariu, em tudo que é lugar que aquela vagabunda já frequentou, ninguém sabia dela, nada. Aí me liga, diz que não vai voltar, pede pra falar com a nossa filha. Pergunto onde estava. Num motel da BR 101 perto de Tarituba. O que fazia lá, vagabunda? Não importa, não é da sua conta, disse. Não é da minha conta? Vou arrancar todos os seus dentes, sua desgraçada. Me conta? Ela contou. Acredita que estava com um namoradinho da adolescência? Tava com o amor da oitava série, disse. Não deixei ela falar com a nossa filha. Então a safada foi atrás da menina. Vou ficar com o amor da oitava série, filha. Não quero continuar com o seu pai. Vagabunda, passa dez dias fodendo como uma piranha, depois decide morar com o tal do namoradinho, quer viver os anos da juventude, recuperar alguma coisa, sei lá, isso a desgraçada me falou quando fui atrás dela. Descobri onde o traste mora. Eu amava ela. Vinte e cinco anos de casamento. Nossa filha tem vinte. Ela sempre foi uma mãe exemplar. Mulher do lar, sabe? Nunca me traiu, a filha da puta, até esse namoradinho da oitava série aparecer. Como eu sei? Na verdade, agora pensando bem, eu não sei. Vagabunda. Não vou botar a minha mão no fogo. Dez dias desaparecida. Dez dias, e eu vendo cadáver de mulher-qualquer pra reconhecer a mãe exemplar da minha filha, a minha esposa recatada, rainha desse nosso lar. Não se faz isso, fornicando em motel de estrada e abandonando tudo pra viver com outro homem. Fiquei remoendo a vergonha, a humilhação. Daí tive uma ideia. Não vou enganar ninguém agora. Premeditei tudo. Falei que a nossa filha precisava conversar com ela, pedi pra vir aqui em casa, a menina não estava, tinha aula, ela estuda no Paula Souza, vai se formar técnica de enfermagem. Ela veio. Deixei entrar. Chorei, fiquei de joelhos, abracei a cintura da desgraçada. Eu beijei sua testa. Implorei, sabe? Implorei que voltasse. Eu perdoo a traição, falei pra mulher que vivi sob o mesmo teto vinte e cinco anos. Ela disse que não ia voltar, que me amou, mas que a gente vivia infeliz há muitos anos, que ninguém merecia viver infeliz, que ia ser melhor pra todo mundo, e que um dia eu ia agradecer. Agradecer? Filha da puta, eu gritei. Filha da puta. Agradecer ter levado um par de chifres? Ser corno na frente de toda a vizinhança, dos parentes, dos amigos? Ela pediu pra eu me acalmar. Eu xinguei. Xinguei ela de tudo que é nome. Aí ela endureceu, seus olhos ficaram gelados e disse que a nossa filha ia morar com ela, que já tinham conversado. Eu fiquei com mais ódio. Minha filha, não. Então eu disse que precisava ir ao banheiro. Mas fui, na verdade, até o quarto, abri o armário e peguei o trinta e oito dentro da última gaveta. Guardo ele atrás das meias, dezenas de pares de meias pretas. Não gosto das brancas, sabe? Então, voltei pra sala. Ela estava arrumando os controles da tevê que deixei largados na mesinha de centro e não no porta controle estúpido que ela havia comprado na última liquidação de alguma loja de departamentos. Mulher é foda. Eu não ia deixar por isso mesmo. Saquei o trinta e oito da cintura, escondido debaixo da blusa, e descarreguei tudo na vagabunda. Mirei na cabeça. À queima-roupa. Matei, sim. Se não vai ser minha, não vai ser de mais ninguém. E não vai levar minha menina pra morar com outro homem. Confesso que matei. A mãe exemplar da minha filha, a minha esposa recatada, rainha desse nosso lar. Prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, não era pra ser? Eu disse a vida toda pra ela, meio de brincadeira, mas falando muito sério, se me trair um dia eu te mato, mulher. Isso é tudo. Quer dizer, depois liguei no um-nove-zero e chamei vocês. Defesa da honra, sabe?

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e editor. Carioca, reside há quatro anos em São Paulo. Autor do livro Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), entre outros.

O lançamento de Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018) acontece no dia 19 de maio (sábado) a partir das 19h no Patuscada — Livraria, Bar e Café — Rua Luís Murat, 40 — Vila Madalena — São Paulo — SP. Evento no Facebook: [link]