três poemas de Tito Leite

imanência

Trigo
nos dentes das feras.
A vida fere
até a carne ficar macia.

Se leopardos
as cores
da liberdade,

fogo
_____em afago
o pulo
_____do gato.

Plantar
uma flor
de esmeralda
à beira
do orvalho

— descer ao húmus
da sua morada
de estrangeiro.

Se de porcelana
o alicerce,
pátria polida,
a sangria-minoritária
da alma.

kerigma

Sereias devoram
a carne putrefata
dos afogados
da linguagem.

Noite escura de cada nauta.

O navegante
é uma tarde esmagada
na barca.

Violáceas são as águas.

armas químicas

Sol venoso
racha cartilagem
na bandeira
da pátria.

Uma noite
aborta outra noite.
Cidade dizimada.

Quando se mora
nos extremos
nunca se sabe
de onde nasce
o próximo atentado.

Tito Leite nasceu em Aurora-CE (1980). É poeta e monge, mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Têm outras coletâneas publicadas nas revistas Mallarmargens, Germina e na portuguesa TriploV. Digitais do caos (selo Edith, 2016) é o seu primeiro livro.