nove poemas, oito poetas | literatura é resistência 1

sopro no coração, de Tiago D. Oliveira

carrego do carrasco a paz.
não sinto o tempo,
não sei olhar para trás.
sou feito daquele vento,

náfego e fim. não
entendo o arrepio. não
sei de onde vim. não
vejo o fio que o cão

carrega na distância entre
o uivo e o latido,
mas guardo vivo, ventre.

do carrasco, a paz marinha,
o querer linear e ferido,
dentes felizes sobre a rinha

carteira de trabalho, de Tito Leite
Para André Luiz Pinto

Folha de prata
que cai,
qual raiz no húmus
inferno capital.
Ínfima
renda per capita.

Todo dia
o mesmo esquartejamento.

Em limo
o lobo rapina
o sol, bois
& relhas riscam
o pasto.

Cidades sepulcrais,
não faltam homens
que comem feno.

Adão, tu ganhas o pão
com o suor da tua tarde,
mas muitos dos teus filhos
comem a nossa carne.

o que fazer, de Paulo Laurindo

o que fazer, senhores,
diante do soberano arbítrio
e a timidez,
e a hesitação
e a insegurança da massa
em escolher um rumo próprio
a interdependência
e viver a delícia
a beleza e os riscos
de uma nova construção?

(e no entando
é preciso inventar provérbios
outras mitologias
novos enigmas
prodigiosos mistérios…
atenção:
qualquer cochilada
na leitura dessa
e de outras histórias
nos arrastará
de volta
àquele velho orfanato
àquele velho porão
esquecido da morte
onde até os vermes vicejam
à espreita
imersos na suposta obrigação
de manter o mundo limitado
àquelas quatro paredes
a alimentarem com carne humana
os cães raivosos
que lhes vigia o umbral)

o que fazer, senhores
diante do fim de tudo
e seus arautos
a esfregarem em nossos olhos
o medo espúrio da transigência e,
sob tutela imposta
baraço
pregação
diariamente
em horário nobre
nos declaram bastardos
e nos condenam a esse beco sem saída
até que, submetidos a essa vontade,
imploremos perdão ao irascível deus
antes que se dissolva
o último dos nossos torturados átomos?

o que fazer, senhores
quando tudo se resume a uma herança
manutenção de privilégios,
troca de favores, pecúnia
impossibilidade de fazer amigos
e influenciar pessoas?

o que esperar
senão a impossibilidade
de nossas mãos vazias?

então, confiemos
confiemos nas cantigas de roda
na arte
na dúvida
na curiosidade
e se verdugos abominam poesia
cantemos
cantemos às cinco da tarde
na contramão do inferno

democracia, de Brunno Vianna

Avenida Rio Branco
Em prantos, ela pulou
Por saudades do Jango
Se jogou do vigésimo e sétimo andar
Perdeu a vida e as vontades
Morreu a liberdade
A moça era jovem
E até bonita
Vestia luto
E sofria todos os dias
Teu nome, democracia.

BRAZILABRIL.U, de Guilherme Salla

São tantos ódios e
só um medo.
São tantos outros e
só eu mesmo.
São tantos ódios.

instante de delírio, de Milton Rezende

Olho para o vazio
de meus olhos.
O espelho
não reflete mais o amor,
outrora visível.

Imagens tão nítidas
se me afloram perdidas
na incongruência do vidro,
uma vez descascada sua tinta
prateada de reflexão.

E agora as manhãs
trazem o hálito da perda,
do que fui e que no meu delírio
se esgotou em fome.

Não a fome dos homens
do nordeste, biológica.
Tampouco a fome dos homens
civilizados, que inventaram a fome
para dois terços do mundo.

Mas fome ela mesma,
que não se come e me digere.
Não se alimenta e me fez assim
um antropófago de mim.

Fome que se reverte em morte
e não me assusta, pois construí
a vida a partir dela.

Sou um desses seres que acreditam
que na sombra se esconde a morte,
e se perde a vida e se ganha a vida.

A vida ganha com a morte
não é metafísica.
Por isso eu me mato a cada dia,
consciente de que um vazio com outro
não se compatibiliza.

vala, de Leandro Rodrigues

ponteiros de dias perdidos
barbáries
já não há mais jardim,
nem casa,
nem voz

o esqueleto do nosso medo
seca na vala comum

abismo, de Leandro Rodrigues

substantivo masculino

1.
grande depressão ou cavidade natural, quase vertical, de fundo frequentemente inexplorado; precipício, profundeza.
2.
lugar escarpado, íngreme; despenhadeiro.
3.
Brasil

guerra civil, de Rodrigo Novaes de Almeida

Só se lembrarão de como terminou a guerra
não saberão dizer em que momento ela começou
Teria sido com as bombas caindo sobre a primeira cidade a trair a República?
— ou seria ela a última cidade a defender os ideais republicanos?
Não saberão dizer

Antes irromperam os grupos paramilitares nas ruas
Antes atingiram-nos o arbítrio e as execuções
Antes sobreveio o esfacelamento das instituições democráticas
Antes deram-se os arranjos e a pilhagem
Não saberão dizer

Depois que os poderes ruíram
sobraram os homens de farda para impor a ordem
e estes trouxeram a mordaça e o azorrague
seguiram-se fome, cólera-morbo, malária
Os filhos do solo batidos, emudecidos
Contudo, só se lembrarão de como terminou a guerra
« Tudo aconteceu muito rápido », dirão os mansos