quatro poemas de Silvana Guimarães

autorretrato com colar de espinhos e colibri

carmem madalena flor hermafrodita
mulher e amásia de joão estanislau
pintor de paredes vizinho de barraco
na favela da ventosa belzonte mg
portador de moléstia séria:
furor nos testículos oh carma meu

carmencita carmita carmamarga
madrasta de seis sobrinhos aflitos
dos mamilos apodrecidos
do útero-deserto-áspero
da alma imutável hematoma
do corpocarneviva carmim

desenganada pelo médico do posto de saúde
abro os olhos afasto borboletas e mariposas
yo soy frita: o amor avis rara passou
sem remédio que cure mi obsesión
só a passagem de ida para o ceará: jericoacora
“espero que la marcha sea feliz y espero no volver”

mínima via

um pássaro pousou
no relevo côncavo
do meu ombro

sede de dilúvio e
essa dor que o tempo
não estanca

certeira
como a solidão das uvas verdes
como o rumor dos rios secos

boca a boca
aspirar o ar
rarefeito

aos poucos
afagar o ardor
do amor baldio

a vida alumiada
o turbilhão do nada
o raio do não

nessa noite que nos afasta

tratado sobre a relatividade

o casco do navio que desaparece
no mar antes do adeus

a face da lua sempre voltada
para a solidão dos meus olhos

20 miolos de garrafa térmica
adquiridos numa liquidação

um sonho fugindo com
o primeiro raio de sol

a luta da alma contra o corpo
[a carne não dura]

a cor do esmalte das minhas
unhas: passional

don’t let me get what i want

em algum lugar da paixão
existe uma árvore branca
que surgiu em meu delírio
no meio de uma tempestade
uma febre tropical na neve
uma árvore que se debate
na solidão do dia embaçado
como se fosse um pássaro
como se fosse um regaço
em dias de chuva ela volta
no calor trava-me os passos
please please please acredite
você é uma grande nadadora
mas o cansaço é inevitável:
a alma exige demais do corpo
so please please please não tente
atravessar o amor a braçadas

Silvana Guimarães (Belo Horizonte/MG). Socióloga, escritora, redatora/revisora publicitária. Participou de algumas coletâneas, entre elas, duas que organizou: 29 de abril: o verso da violência (Patuá, 2015), Dedo de Moça — Uma Antologia das Escritoras Suicidas (Terracota, 2009), Hiperconexões — Realidade Expandida Vol. 2 (Org. Luiz Bras, Patuá, 2014) e 1917-2017 — O Século sem Fim (Org. Marco Aqueiva, Patuá, 2017). Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas. Vive em Belo Horizonte.