quatro poemas de Flavio Caamaña

dos filhos cegos

enquanto batíamos a cabeça contra o vidro
ontem o prego subiu pela sola

as pessoas moviam-se em estado de caos
os corpos apresentavam rachaduras
no rastejar dos joelhos
a extinção da vida selvagem
pesadamente no chão
longas filas e os desaparecidos
da língua
desaparecidos um homem e uma mulher
dedo contra dedo
a espera do objeto de contração
objeto misterioso e demasiado pequeno
para o deleite do mundo
o respingar de palavras assadas de sabor
a pimenta preta e repartida
o desenvolvimento da música
e a dança
luz de neon sobre loucas pin-ups
e as coisas até aqui banais
no ar mosto
um mármore numa linha de um século
a lua movia-se pela luz dos celulares
e sucedeu-se um litro numa combinação de anis
carros na praça e o engarrafado
explodindo na circulação
das bocas rápidas
venderia o meu tempo para irromper
no centro uma estrela em chamas
linear ou abaixo
ou na altura dum corpo ou em frente
tocar o cravo na varanda
de bombeiros nessa atmosfera de plantão
aquele desencontro nas colinas
pregos de número 57 que se enganam
mas para serem um prego de número 58
é preciso morrer
esconde-esconde para o ouro até as seis
veneno branco no chá do presidente
para sufocar o mal pedaço até as veias
chiar e ruflar nesta sedenta
carne flor de pétala de uma pele velha
perdendo o brilho como uma luva esquecida
— corpo —
ele enviou cartas para este endereço
se fez de celebridade na casa em festa
flor férrea moldada
pelo capricho árduo de um martelo
um leito de folhas para duplas introduzidas
meter no roxo e afogar nos fluidos
o poder de um deus é para ser recompensado
como a cegueira num ninho de sexo

alguém sempre levantará o cérebro
contra o lado fosco de um espelho

como imitar um asno sendo um cisne

veja só que imensas estas asas:
a voracidade de uma vida analfabeta
alimenta o pavor e a doçura
alucinações de água e glória
fruto em movimento de velocidade
mural sob os ramos superiores
oh, os rostos de cimento vivo
nos últimos dias de nuvens que sobem
vulcões e cavidades cultivados em parques
como os olhos rarefeitos das casas
jardins executados entre as faces de terra
e o sexo dos animais amanhecendo
as larvas fosforescentes
e suas fraquezas que permanecem
desaparecem pelas salas iluminadas
dia após dia
procriam num acidente vascular cerebral

e ele vai de t-shirt ao trabalho
ele desliga no modo 74 o pênis
todas as espécies queimadas
pela flor de diamante
LEDs no piso manchado de cerveja gelada
não querem aprender a escrever com sangue
não querem ser escoltados do portão
para o centro da guerra
skates num sonho e spots cor de turquesa
num abraço de braço de sofá
o amor é eletricidade a partir das 8
luz intencional para estabilizar o terror
quem definir melhor este olhar
sabe que depende do espaço e da posição

que a tempestade vem e sobe pela coluna
sequestra o trajeto mental
e é nada
e parece que é mudo
para este desenho de episódios de som
estalam os pés enterrados nos sapatos
e não há dúvidas que um cisne pode sonhar
o chamado vem de todos os lados
desde o matagal pisado pela passagem de 90 cavalos
e no envio de um cometa pelas tubulações
anéis soltos a fechar um rabo:
veja só que imensas estas asas

ferrugem

as coisas vivem cobertas de nomes
agora eu estou num suporte de oxigênio
as pernas e a energia da radiação
gráfico de flores por um mês
nodulunar ativo pela chuva
as veias escuras do grau mel
olho em torno os lugares pós-órbita
na vida de um pensamento
ser virgem é perigoso
o efeito da água entre as bocas
na absorção dos fluidos
válvulas num brilho de cratera
ovos de vidro sobre a cama
o corpo dá um salto
para alcançar o sol

tocar o céu com um dedo

este poema vem pela traseira
qualquer linha de um quadro
de um veio de um fetiche
itens mágicos ou materiais
e ferramentas
contra o espírito dos guardas
é preciso esconder os lucros
e superstições
ocultar a natureza da infração
se no princípio desta linha
tudo estava organizado
nos elementos
nas fontes
poetas pelo mundo
e adversários
um palhaço desenha uma habitação
onde nada tem regresso ou saída
vivemos pelas portas e janelas
e abrimos túneis pelo chão
escrevemos uma rotunda frase de trás
e ficamos no meio como uma peça
de mobiliário
e os amantes cercam o quarto
formando um bloco
esta poderia ser a cor favorita
dos mortos de guerra
a partida dum fluxo letal
do coração
a memória corrói através dos olhos
e entra tudo em combustão
quando temos estes nós
animados por um ponto de contato
tocados pelas crias destas prisões
esta é uma pérola periférica
e drogada
desde que a droga infiltre-se
no sensível do animal

Flavio Caamaña é um trabalhador braçal e poeta nascido em Tamboril, desertão do Ceará. Vivenciou o auge da ditadura, a infâmia e a injustiça. No início dos anos noventa participou como voluntário em campanhas de apoio às vítimas da Aids. Primeiro lugar no XVI Prêmio Literário Ideal Clube de Literatura, participou de coletâneas em livros e revistas literárias virtuais. É autor do livro de poemas Aquedutos (Editora Patuá, 2016).