abrupto, conto de Itamar Vieira Junior

A igreja ficava no alto de uma colina, pedras e pedras amontoadas em um amparo íngreme. A noiva subiu de um só fôlego enquanto os convidados peregrinavam vagarosos, certos de que não chegariam a tempo para a cerimônia. O noivo, aflito, não contava como havia escalado a colina, mas se antecipara, porque lhe coube apenas a espera. A noiva arfava segurando a cauda do vestido, irrompendo a porta gritando “eu vou me casar”. Era uma escalada, de qualquer forma, e tudo se diluía no cansaço, do qual não falavam. Primeiro, as pétalas caíram no chão da igreja. Não, primeiro, os convidados que não conseguiram chegar se foram. Quando não havia mais flores, o vestido se despedaçou de antigo. O cabelo se fez grinalda e branco. A pele foi se esgarçando em nuvens. Nenhuma felicidade foi para sempre.

A noiva, agora mulher e mãe, teve três filhos, nascidos num intervalo de anos com chuva e sem chuva, numa década em que o noticiário só falava do aquecimento global. O marido, agora pai, estava cada vez mais ausente, para fazer jus à herança familiar de homens bravios. Chegava quase sempre mais tarde do trabalho, às vezes sequer aparecia em casa. Dava as mesmas desculpas que o pai dera à sua mãe, e que o pai do seu pai dera à sua avó. Eram as mesmas desculpas dadas pelo Presidente da República nos discursos em cadeia nacional contra as acusações de corrupção. As mesmas desculpas dadas pelo açougueiro para justificar o excesso de gordura e massa branca na carne que vendia para as refeições.

A mãe levava as crianças de casa para a escola, da escola para casa. Quando possível, descia para distraí-los e observá-los em brincadeiras e brigas na praça. Tê-los em casa, gastando energia entre as quatro paredes, era uma tortura inenarrável. Sentada no banco quebrado da praça, tentava se concentrar em um livro, em outro, em outro. Mas sua leitura era interrompida a cada parágrafo, porque um menino tomou a bola do outro ou esticou a trança da menina. Ou a menina empacava com risos malignos na partida de bola, entre um e outro. Eles não paravam de gritar “mãe, mãe, mãe”, e a mãe, que a princípio ouvia, resolveu ignorar os acessos da infância. As crianças, sentindo-se relegadas, a cercaram, ferozes, tentando arrancar o livro de suas mãos, puxando sua roupa, gritando palavras impronunciáveis.

Um dia, aproveitando a distração em que estavam, entre disputas e brincadeiras, levantou com as mãos nos bolsos e deixou a praça, para dar uma volta nas redondezas. Usou o dinheiro do pão para tomar um sorvete, subiu e desceu de um ônibus vazio que a deixou à beira-mar, para então sentir a leveza que jamais tivera, sequer antes de subir a igreja da colina. Quando o sol já se punha, voltou para a praça, e não encontrou as crianças. Foi tomada de um misto de remorso e contentamento. No caminho de casa, encontrou-as sob a guarda de uma senhora verdureira, e gritou para eles: “Por que se afastaram de mim?”, “Crianças mal criadas”, “Um mês de castigo, sem descer para a praça”. A verdureira olhou de esguelha para a mulher que simulava a indignação da maternidade, imaginando que ela, no mínimo, havia sido negligente em deixar as crianças se afastarem de seus cuidados. A mãe olhou para a verdureira para agradecer e saiu puxando as crianças aos prantos pela rua.

Fez mingau para os três, mas avisou que perdeu o dinheiro do pão, portanto, só haveria pão se o pai resolvesse voltar naquela noite para casa. As crianças assentiram sem contestar, de tão esgotadas que estavam do choro pelo abandono. E dormiram sem pão.

A mulher só teria seu nome sussurrado em momentos de melancolia e saudade depois de sua morte. Dias depois do incidente do abandono dos filhos, contemplou o sol que nascia todos os dias e declinava. Contemplou as horas e os minutos opressores. Pensou na maternidade — não havia nascido para esse laço —, pensou na escola dos filhos, nas tarefas que precisava ensinar sem nenhuma vontade, no alcoolismo do marido, nas palavras armadas, nas feridas que doíam, fechavam e abriam, nas dívidas e nos anos que encolheriam. “É golpe”, vaticinou. Voltou à igreja da colina e se atirou decidida a ver seu corpo que morria voar.

“Maldita”, cuspiu o marido sobre os pedaços de carne que haviam restado da mulher, para horror dos presentes ao funeral. Saiu em um rompante, arrastando as crianças inconsoláveis, levando junto a única coroa de flores. Saltou as poças de lama, deixando a menina cair numa delas, e seguiu lendo os letreiros das propagandas. Ao chegar em casa, não esperou sequer os filhos dormirem para iniciar seu espetáculo. Abriu o vinho que guardou para celebrar as bodas de mês com sua nova amante. Chamou pelo nome da mulher. Ouviu no último volume a Dança Macabra de Saint-Saens para abafar o choro das crianças, e também para incômodo dos vizinhos. A família que morava no apartamento da frente passou a bradar contra o caos que se estabelecera. O casal de idosos do andar de baixo bateu no teto com cabos de vassoura. “Malditos”, disse para si mesmo, dessa vez. Trancou os filhos no quarto, numa tentativa inútil de abafar o choro crescente. E chorou pela sujeira que começava a se acumular na janela.

Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, Bahia, em 1979. É escritor, geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA). São de sua autoria os livros de contos Dias (Caramurê, 2012), vencedor do XI Prêmio Arte e Cultura (Literatura — 2012), e A oração do carrasco (Mondrongo, 2017), obra selecionada pelo edital setorial de literatura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Dois de seus contos foram traduzidos e publicados em revistas especializadas na França.