ondina, conto de Rodrigo Novaes de Almeida

“Incrível, por certo os deuses mudaram de opinião
acerca de Odisseu enquanto eu, entre etíopes, estava;
já próximo está da terra feácia, onde lhe cumpre
escapar do grande limite de agonia que o atinge.
Mas creio que o perseguirei até se fartar de desgraça”.
Isso dito, reuniu nuvens e o mar turvou,
as mãos no tridente: atiçou todas as rajadas
de todos os ventos e, com nuvens, encobriu
terra e mar por igual; e a noite desceu do céu.
(Odisseia, Homero)

Aquele momento entre o dia e a noite em que nossos olhos precisam se adaptar, lusco-fusco a embaçar nossas retinas, uma estrada esburacada e um pneu do automóvel furado cerca de três quilômetros atrás. Parado no acostamento, descubro que não há estepe no porta-malas. Nenhum ladrão de carros confere o estado do pneu sobressalente ou a validade do extintor. Se abre o porta-malas é para procurar alguma coisa de valor, ou um cadáver, se for precavido — já ouvi histórias de cadáveres encontrados assim.

A estrada serpenteia a orla marítima sobre um penhasco. De onde estou, vejo uma aldeia de pescadores uns dois quilômetros à frente. Vejo alguns barcos ancorados em um canto da praia. Abandono o automóvel no acostamento. Algumas estrelas já aparecem no céu azul-marinho. Não há lua.

A aldeia parece deserta. Entro na única rua que segue da estrada à praia e ao ancoradouro. Um cachorro de pelos curtos bege claro passa por mim. Vejo um pequeno edifício de quatro andares com um letreiro que diz: Estalagem e Bar. Um aviso pendurado na porta manda entrar sem bater. Entro. Uma mulher está atrás do balcão. Às suas costas, algumas garrafas de destilados em prateleiras de madeira. Cadeiras de ferro pintadas de branco estão fechadas e encostadas em uma parede do salão. As mesas de ferro também pintadas de branco estão abertas e espalhadas pelo lugar.

A mulher é gorda, tem uma pinta do tamanho de uma barata grande na bochecha. Ela pergunta o que eu quero. Peço um quarto e ela diz que não tem. Peço então uma dose de conhaque, apesar do calor. Faz muito calor, estou ensopado. Ainda assim bebo a dose de conhaque. Pergunto se há outro lugar onde eu possa pernoitar. Ela responde que não, não há outro lugar. Peço uma cerveja. Tenho sede. É uma sede filha da puta.

Um velho me diz que existe um casebre subindo o rochedo perto do ancoradouro. Eu me pergunto de onde surgiu aquele velho. Ele estava aquele tempo todo sentado em um canto do salão, perto das cadeiras de ferro pintadas de branco. Eu me aproximo dele. Seus olhos inteiros são da cor das cadeiras, e desbotados como elas. É um velho cego. Pergunto como faço para chegar lá e quem vive nele. A mulher gorda grita do balcão que o casebre está abandonado, quem morava lá era Dona Alcíone, e Dona Alcíone morreu. Cento e cinco anos, morreu há duas semanas. Ela diz aos berros. O velho se oferece como guia. Aceito. Termino a cerveja, pago as bebidas e sigo o cego. No caminho não vejo mais ninguém, só o mesmo cachorro de antes passa por nós. Dona Alcíone não morreu. Diz o velho. Dona Alcíone voltou para as plêiades.

O velho cego me deixa diante de uma escadaria íngreme entalhada no rochedo. O casebre está lá em cima. Ele diz e aponta para o alto. Ofereço umas moedas e ele não aceita. Então subo. A porta do casebre não está de todo fechada. Eu a empurro e espero que meus olhos se acostumem com a escuridão. Lembro-me de ter visto uma lanterna no porta-malas quando procurei o estepe. A lanterna ficou no porta-malas. Entro no casebre.

Há uma cama, um fogão enferrujado de quatro bocas e um bujão de gás no chão ao lado, uma pia, uma mesa de madeira encostada na única parede que é de pedra, a do fundo, as demais são de barro, pedregulhos e cipó, e duas cadeiras, também de madeira. Há uma janela, além da porta. É de onde entra a tênue luminosidade da noite sem lua. Não há luz elétrica, candeeiro ou velas dentro do casebre. Pela janela vejo do lado da casa um chuveiro e um quartinho de madeira, imagino que tenha uma privada dentro. Também vejo o ancoradouro lá embaixo, os barcos agitados, a aldeia aparentemente deserta. Ouço um trovão e olho para o céu. Uma nuvem negra desce a montanha. Cheguei na hora, penso. Durmo e amanhã arrumo um jeito de sair daqui.

Tiro os sapatos e fico com a roupa. O colchão não tem lençol e quase decido deitar no chão de pedra. Guardo meu revólver dentro de um dos sapatos e a carteira e o molho de chaves dentro do outro. Mal me deito e ouço um estrondo. Desta vez não me parece um trovão. Ouço outra vez. Corro para fora e olho para baixo. Vejo o ancoradouro, os barcos agitados e a aldeia aparentemente deserta. Vejo ainda algumas estrelas no céu. Penso nas plêiades. Lembro-me do velho cego que me guiou até aqui. Vejo a nuvem negra descer a montanha do outro lado da estrada. Entro novamente no casebre e espero que meus olhos se acostumem com a escuridão.

Ela está sentada na cama. Ela se chama Soraia. Ela diz ter dezenove anos. Eu não quero confusão e a mando embora. Ela usa uma camisola semitransparente. Eu não quero confusão e a mando embora pela segunda vez. Ela se levanta e vem até mim. Eu não quero confusão e a mando embora pela terceira vez. Ela me beija na boca, depois sai correndo. Eu vou atrás. Ela desce a escadaria. Eu desço atrás. Ela ri alto. Eu grito que espere. Ela corre. Eu corro atrás. Ela pisa na areia branca e para. Eu a alcanço. Estamos descalços. Ela canta, ri, dança. Eu olho para ela. Ela corre novamente na direção de um barco pequeno encalhado perto da arrebentação e me chama.

Soraia canta. O velho cego me diz que são sete irmãs. Eu me pergunto de onde surgiu aquele velho cego outra vez. Ele estava aquele tempo todo sentado em um canto da praia. Ele me diz para ter cuidado, uma tempestade se aproxima. Eu o deixo e vou atrás de Soraia. Soraia já está dentro do barco e me pede que o empurre para as ondas. O mar se encrespa. Ela ri alto. Eu empurro o barco. Soraia canta. Eu empurro mais e me jogo dentro do barco. Vamos, rema. Diz ela. Pego o remo no fundo do barco. Quando vejo, estamos longe da praia. A aldeia, o ancoradouro, o rochedo, a montanha, tudo longe, muito longe, menos a tempestade. A nuvem negra está agora sobre nós. Soraia agarra meu pescoço e me beija. Eu beijo Soraia e seguro sua cintura. Soraia aperta meu pescoço. Estamos sob temporal e não reparo que o barco enche de água. Soraia aperta meu pescoço mais forte. Eu não consigo respirar.

Eu luto contra ela. O rosto de Soraia é o rosto de mil mulheres. A pele de Soraia são escamas. Soraia tem trinta e dois mil anos. Ela tenta me estrangular. O barco quase vira. Não sei se sou eu, se as ondas, se o temporal, Soraia é arremessada para fora do barco e some entre as ondas. Eu pego o remo e o mergulho violentamente, como se procurasse atingir no mar a cabeça daquele demônio. Eu remo o barco de volta para a praia que não vejo sob a tempestade.

Entro na enseada e prendo a pequena embarcação perto dos barcos de pesca. Olho para a praia à minha esquerda e vejo Soraia cantando e rindo e dançando. Vejo um homem se aproximar dela. Eu sou o homem que se aproxima. O revólver! Corro até o rochedo e subo a escadaria. Entro no casebre e pego minha arma dentro do sapato. Volto para fora. Soraia está dentro do barco. Desço a escadaria correndo. Na metade do caminho, vejo o homem empurrar o barco na direção das ondas. Atiro. Um, dois tiros. O homem entra no barco. Alguém lá em cima dentro do casebre escuta um estrondo. Escuta uma vez, escuta duas vezes e sai para ver o que é. Vê o ancoradouro, os barcos agitados e a aldeia aparentemente deserta. Vê ainda algumas estrelas no céu e pensa nas plêiades. Lembra-se do velho cego que o guiou até lá. Vê a nuvem negra descer a montanha do outro lado da estrada. Então entra novamente no casebre e espera que seus olhos se acostumem com a escuridão.

| conto publicado na Revista Ponto, edição n. 11 de jan-fev-mar de 2017, p. 78-81 (Editora Sesi-SP). |

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor, editor e jornalista. Autor de Carnebruta (contos, Editora Oito e Meio e Editora Apicuri, 2012) e A construção da paisagem (crônicas, com Christiane Angelotti, Editora Sapere, 2012), entre outros. Site e Twitter.