nunca passamos além de taprobana, poema de Patrícia Lino

Pensei que não vivesse mais.
Quando o vizinho canta, eu acendo um cigarro
e penso que risquei — propositadamente —
o teu vinil com as chaves de casa.
No more imagine me and you, you and I.
Anos sessenta, The Turtles, já lá vão.
Perguntas se passou, digo-te que não.
Nunca passa. A thousand years, seis meses,
nunca passa. Pensei realmente que não vivesse mais,
quase morri; sem samba, estatueta ou benesses.
Perdi a bicicleta, a cabeça, o telefone,
aquele aguçado e pequeno pulso tremente.
Jurei por isso que nunca mais te via
e ri com fervor dos que riem com fervor e
os que riem com fervor dos que riem com fervor
riram-se de mim. Soluçava consecutivamente quando
disse a mim mesma esta verdade tríplice e absoluta:
you have no woman, no dog, nor country.

Pouso as mãos frias sobre os olhos.
Viver tem-me afetado muito a vista. Nunca passa.
O que o vizinho canta eu canto depois no chuveiro:
tem dias Beatles, Céline Dion e Valentín Elizalde.
Pensar que aparecerás à porta de minha casa é um furo.
E canto. They say I got mad. Talvez estejam certos.
Mas é que me aninho aqui na banheira e sou tão frágil.

Patrícia Lino ensina e é finalista do doutorado em literatura brasileira na University of California, Santa Barbara.