sem sombras, poema de Wellington Müller Bujokas

A Eden Clabuchar Martingo

— A cor do alce?
— Hummvermelho…
— Chuta!
— Am-marelo…
— Hu-hum
verde… com bolinhas azuis
(gosto da combinação frio-frio).
As bolas flutuando, oi!
uma águia vem voando foi foi acolchoado boi
em listinhas flufliiinhas,
fiuuu, fiuuu,
puh!sobre o vazio-buraco amassado do mar,
verde rocha incolor
o vosso andor,
piolho saltou
é uma canção de amor
ao aom aommmarcianos invadindo a Terra,
marcianos invadindoaaa Tehrra Bota o pé no chão!,
buraco! buraco!! buraco!!! é um baita chão,
o perigo à mão,
a Terra… bom…
PAN-PAN PAN-PAN PAN-PAN
e chegamos ao teatro, sentamos, a música não começa,
mas o espetáculo é isso
é isso
é isto
uma prova de pragmatismo: o mundo torto
mas ninguém derruba.
Como prova de surdez,
uma prova de medo:

Acenda a luz!

Porque,
dentro do tempo, há um tempo
que merece o seu olhar atento.
Tento, tento, descortina,
e a noite ilumina os dias e as noites e o fim da infância.
Prezo o meu negror, preso ao mundo peso, peso, peso,
e as horas vão passando devagar,
como se eu não tivesse mais nada a alcançar.
O tempo parou!
Corre com as mãos, o nariz, as orelhas abanando de felicidade,
só olhos não bastam para sentir todas as rugas do mundo,
cerremo-los mesmo até doer;
as rugas na gente — o tempo passa, pois.
Não ignore o tempo (me lembro como uma fitinha vermelha no mindinho para lembrar o que esquecerei enquanto ainda importa).
Acenda a luz, sim!
Lento os olhos se acostumam,
mesmo que a crueza seja muita, mesmo que a feiúra seja muita,
a beleza de enfrentar o mundo mudo só cor,
um mundo como estática, ao qual a gente não pertence, incompreender é um esforço,
é uma jogada arriscada do azar.
Ser só crueza, um instrumento de duas pontas com um fim único, trágico,
um arpão que faz fon fon é bem ridículo,
a crueldade é maior quando a gente não entende o limite
(de tudo, mas sobretudo do ridículo).
O limite começa na gente
e some no escuro.
Acenda a luz:
o sumiço é o fim da gente.

Esteja preparado para o horror.

Esteja certo que não há preparo para o horror,
a menos que você seja um escroto
(e tens todo o direito, corrijo-me,
de assim resistir ao pavor).

Não sejamos funestos nestes tempos mornos,
em que decidimos renhidamente não morrer (e assim seremos felizes,
ainda que inevitavelmente escrotos para tanto).

Tempos em que, parece, ricos e pobres, podemos empurrar com a barriga
pela quase certeza, em sobreviver
(os fracos que não o julgaram bastante visitam analistas),
e em que o peso da vida ficou no depósito, em casa,
para onde só voltaremos pela manhã (inevitavelmente deprimidos).
Talvez para o fim trágico ainda faltem tamanhos passos,
e evitar a queda, sua consequência seja dor indevida.
Se a questão da luz
não é impedir o desastre,
usufrui
(o que traz a luz
ou os chifres do alce se ramificando eternamente
em verde, azul, amarelo e vermelho,
um por vez ou todas ao mesmo tempo.

Não é sadismo de minha parte.
O mundo será melhor.)

Wellington Müller Bujokas cresceu em Barão de Antonina, interior de São Paulo. Em 2012, publicou Estudos (Travessa dos Editores), seu primeiro livro de poemas. É tradutor, jornalista e diplomata. Serviu em Astana (Cazaquistão) e Moscou (Rússia). Mora atualmente em Brasília. Wellington é o tradutor de Vladimir Maiakovski na nossa coleção em https://revistagueto.com/traducoes/