quatro poemas de Felipe Pauluk

cutícula

dos corações
sangram grandes prédios,
carros, motos envenenadas
& amores talhados na cutícula
minhas costelas dão corda no tempo
& os dedos cravam na carne de uma carpa virtual
nas entranhas encontro você
nas ovas têm um bebê-deus e um estado laico
eu fabrico poesia aos sábados
dentro de uma mesquita que me devora em sexo
todos os ratos desta cidade
dizem coisas boas sobre teu nome
a penicilina do diabo
é a saudade que mora entre o crânio e a poesia
como um cordeiro imolado
meu coração sangra grandes prédios,
carros, motos envenenadas
& amores talhados na tua cutícula

ulisses

— eu nem sei bem o que estou fazendo aqui novamente.
— como assim?
— eu só voltei pra buscar meu maço e cinco pilas que deixei debaixo da galinha de ovos na cozinha.
— é que você é um otário. é por isto.
— eu sei, minha mãe sempre diz isto.
— tira a cueca e volta pra cama.
— não. desta vez eu vou mesmo. não volto mais. acabou.
— ai, ulisses, é terceira vez que você diz isto hoje. tomá no teu cu.
.
ulisses dormiu lá novamente aquela noite e depois na noite seguinte e depois e depois e depois.

barro, trigo e metal

deus é um cigano
em um cavalo alado
sobrevoando as avenidas
mascando congestionamentos
moendo humanos
os refazendo com barro, trigo e metal
o coração do homem está pregado
na cruz do cotidiano
no bolso da virtude
na entrega das obras
e dos amores
eu naveguei em uma estrada esta noite
e não te vi nos acostamentos,
não te vi nas pradarias
te encontrei no asfalto
socando meu bojo
lambendo meu peito
ligando sem parar
e chorando em silêncio.

trepa-trepa

vamos? — disse ela
vamos! — topou a outra
trepar até morrer.
imagina nós duas
eu & você
transando até o coração explodir
infartadas
na cama de motel
corpos entrelaçados
secos, friozinhos
achados em decomposição
os legistas e os tiras
ao redor da cama redonda nos olhando
um deles coloca a mão no queixo,
pende a cabeça para o lado e diz:
“mas como o amor é lindo, gente”

Felipe Pauluk é um curitibano residente em Londrina, jogou na loteria da vida e, numa quina, tirou o menor prêmio, a literatura. Lançou seu primeiro livro, Meu Tempo de Carne e Osso, em 2011. Hit The Road, Jack (romance), em 2012. Em 2015, outro romance, Town. Em 2016 lançou dois livros de poesia, Comida di butequim e Tórax de São Sebastião. Além de escritor, Pauluk também é roteirista e diretor de clipes.