vampira debaixo do sol

Sempre a procurei pelos livros, mas foi na biblioteca que a encontrei ao ver seus olhos estendidos sobre as mesmas órbitas de Der Zur Macht* que me revelaram milagres e epifanias de um crânio e um amor sem salvação. O ritmo de todas as caveiras prenunciava nosso diálogo com cadáveres no perímetro de sua boca sedenta e inflamada. Eu estava preste a me desfazer como gelo afogado em whisky não bebido por seu batom, mas procurei pelo sol, procurei por um bar e, na medida que nossos passos se perdiam em busca de refúgio pelas calçadas, cresciam nossos delírios. A vi trazer o mundo na orelha como um brinco que se poderia perder em qualquer criado-mudo incapaz de nos denunciar. Eu sabia de seu desejo de violar todas as superfícies e todos os homens da superfície, também sabia que meu destino não seria diferente dos demais. Um doce mormaço nos fez levitar até os tentáculos de um polvo metálico para beijarmos o púbis das cervejas em copos de pecado. Nos excessos do dia, abriria a cortina da noite. Tremores de uma alucinação feroz em giros excêntricos pelos porões e sótãos de minha cabeça arrastaram seus joelhos para onde seus pés, por prudência, não deveriam ir alimentar o resto da vida com uma hora de loucura.

Hotel de carícias. Hora premeditada em que eu podia abrir as janelas de seu vestido e os olhos para a cumplicidade da lua e aproveitar o medo das nuvens de te ver transfigurar-se na penumbra onde seu rosto poderia praticar um crime delicado. Abri a porta de seu tornozelo que é a entrada de seu desejo. Sua penugem tão próxima das asas, dos dedos, do pênis, o sorriso de sua suave anatomia, os pequenos pelos da perna que refletiam as luzes dos candeeiros e se deixavam colorir de cobre como seus cabelos se deixavam tingir com meu sangue. Não, nunca mais sairei do uivo de seu cão ou das páginas de seu caderno de adultério. As datas incandescentes contornam fragilmente as folhas de seu calendário bordado a fogo a incinerarem nossos dias. Beijos azulados deslocam seu ponto de fuga para além dos limites habituais e retalham a silenciosa atmosfera donde o suor é amigo e consorte dos amantes de março protegidos em alcovas das estrelas despregadas e das águas que encerram o Verão. Demência apaixonada onde encerramo-nos em quartos, onde a despi de todos os corpos que cobriram seu corpo. Jogos de dados lançados em lençóis pálidos, teu sexo refletido no espelho e chamando por mim. Naufraguei no cio das coxas como dois rios que dividiam o mar tingido por menstruações que afogaram tantos sêmens na travessia do canal da mancha em colchas que escondem segredos e ocultam digitais. O crime é mais importante que o castigo e as paredes possibilitam inserções mágicas e fórmulas algébricas que nunca se repetem. Arranquei da sua face todas as máscaras de rostos amados. Eu soube decifrar seus jogos noturnos. Pouco a pouco os trapézios de néon avançavam através das sobrancelhas cerradas da meia-noite nos meandros de armas e rosas. O vinho nos bebe e macula a cama. Os olhos de dois morcegos famintos abandonaram sorrateiramente as feridas nos travesseiros abertas por nossos poemas. Cortina de cabelos transforma qualquer imagem em miragem. Uma roleta giratória de revólver em permanentes disparos sobre a rosa carnívora. O perfume na garganta de espuma e fúria das invasões bárbaras. Nossas bocas só depois da madrugada fazem passar os pássaros em revoada sob a pele, porque o amor é só uma palavra, porque o céu foi nossa última chance essa noite.

O lápis do sol desenhava o contorno de seu corpo e tingia as marcas em meu pescoço. Seus caninos sorriam para mim.

* Vontade de Poder

Vinícius Canhoto é mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo e autor de Livro do Esquecimento.