sete poemas

1.

Os domingos
deixam-me desconsolada
quando não
tenho com quem
fazer amor
Não há homem que
me coce
porque o homem que
me come
dorme
na nossa cama
Importa-me que
o homem que
me come
coma iogurte
grego
Importava-me que
o homem que
me come
dormisse
nesta cama que
me comesse que
eu tivesse
cócegas consolo que
eu tivesse
com quem comer iogurte
grego

2.

Nem que as cortinas abertas revelassem o ângulo
dos teus olhos os teus cabelos que o sal tivesse molhado
eu quereria espreitar-te roubar-te ao tempo
nem que me mostrasses a camisa branca o cetim e a seda
a promessa da nudez nem que me convidasses para o equinócio
me enviasses os perfumes das manhãs na Pérsia eu te quereria
nem que suspendesses o eixo que segura o mundo
que tecesses a ouro fino o caminho que um trapezista
pudesse atravessar para encontrar a lua eu te quereria
eu não te quereria nem que sacrificasses
o touro azul que derramasses o vinho aos meus pés
que voasses num tapete que interrompesses a roda dos meus véus
eu te quereria eu não te quereria nunca mais não te quero nunca mais
nem que as cortinas arregaçadas pela primavera me revelassem
a explosão mansa e breve dos teus olhos bons
que eu nunca mais vi

3.

Ser a água que acende a luz
o caudal branco da tua idade
que começa a água como
se o amor fosse aqui
amar-te de perto
guardar-me para o mar
como para ti
como a água
que espera o mar

4.

Desvela-te dentro de mim como o encantamento da cigarra
na noite quente do tempo
escraviza-me a carne difícil de mulher
com a carne leve de seres homem
sê para mim a serpente e a música
o beijo do elefante soprado como uma mão aberta sobre o mundo
o músculo maduro da romã
come-me para sempre no silêncio leitoso do princípio sexual
como aquele que me gerou para me gerares
inventa-me ainda na infinita beleza de me falares para dentro
no silêncio da única língua que eu falo
no silêncio da única língua
que me diz o meu verdadeiro nome

5.

amanhã às sete
bebemo-nos
seremos
como bichos
sem religião

és a seta
que me fere
onde a vida
é mais verdade

a tua mão
cheira
à minha
mão quando
te vejo do
portão

6.

Passa um cão
por uma vinha
vindimada
a lua parece
maior ou
menor
em função
da cabeça
de cada um
(cada um ter
a sua cabeça
não é coisa
pequena)
a solidão
de Mariana
vê-se melhor
agora que
cortaram
os trigos
uma mulher
nua às vezes
parece maior
as mamas
mais pequenas
os barcos também
são sempre
do mesmo
tamanho
nós é que
não

7.

I
O meu sexo cheira
ao teu sexo
quando chego
sentada na cama
sinto-nos o cheiro
eco quente
do corpo só
não sei quando
aconteceu o meu
sexo costumava
cheirar a mim
eu costumava ser
eu agora não sou
ninguém

II
O José Carlos
não gosta do verso
não sou ninguém
porque o José Carlos
é o José Teixeira
não é um Zé Ninguém
Será que o José
Carlos se lembrou
do Ulisses
do Romeiro
e não aceita que
uma mulher
possa querer ser
universal
como um homem
que se perdeu
no mar
porque as mulheres
não andam no mar
ficam na praia
são loucas
e choram
eu chorava agora
como dantes
choro na praia
tantas lágrimas
que quase ceguinha
parece que não sou
ninguém?

Mafalda Sofia Gomes nasceu no Porto, Portugal, em 1992. Estudou literatura portuguesa e alemã na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, especializando-se em literatura medieval alemã. Não tem livros nem prémios para referir porque esteve a aprender alemão.