três poemas

vizinho

Dizem que ele mora aí. Atrás das placas antigas, das folhas metálicas, dos vidros que se foram. Dizem que ele faz a barba, mima o cachorro, continua a polir loucamente o ferro que resta. Ninguém sabe quando decidiu trazer sua casa para cá — ou fazer dessa kombi sua morada. Ao que consta, é apenas o cachorro que o impede de viver só, como a velha perua o impede de viver ao relento. Não escolheu praia, mata, duna. Apenas a sombra de prédios imensos e de algumas árvores que sobraram no bairro. Não sei de onde tira vontade para pentear o cabelo, não entendo o rosto polido. O asseio com que espalha e emenda os cobertores de alumínio camuflando o carro contra os olhos sabe lá de quem. Passo uma, duas, três vezes por ele — acampo a atenção à volta de sua vida. Por um momento penso em dizer bom-dia, mas fico imaginando se não foi um bom-dia que o fez querer viver aqui.

panta rei

Heráclito não tinha pressa:
em cada fio de que são feitas
as coisas todas vivem
de comer a si próprias
e assim se encaminham
para o desaparecimento
dentro do mais dentro de si
(o calor escala a luz)
: talvez seja este o nome
que nunca tivemos coragem
de dar à nossa esperança

eles querem mais

516 anos. E os índios que estão nas terras que interessam aos brancos são mortos aos montes: sem registro. 516 anos. E os negros que enfrentam os limites definidos pelos brancos são mortos: como culpados. 516 anos. E as mulheres que não acatam (e mesmo quando acatam!) as ordens dos homens são mortas: como suspeitas. 516 anos. E os pobres que não se dobram à máquina que reproduz a riqueza dos ricos são mortos: como inimigos. 516 anos. E os trabalhadores que querem respeito aos direitos que ainda têm são mortos: como uma afronta. 516 anos. E os «diferentes» que não se escondem (e mesmo quando se escondem!) são mortos: como um mal. 516 anos. E crianças que brincam com os brinquedos alheios são mortas: como um aviso de que 516 anos foram pouco. Eles querem mais.

| pags. 24, 43 e 70 do livro Íntimo desabrigo, Dobradura Editorial e Alpharrabio Edições, 2017. |

Tarso de Melo (Santo André, 1976) é advogado e poeta. Lançou, entre outros, os livros Planos de fuga e outros poemas (Cosac Naify, 2005), Lugar algum: com uma teoria da poesia (Alpharrabio, 2007), Exames de rotina (Editora da Casa, 2008), Caderno inquieto (Dobra Editorial, 2012) e Íntimo desabrigo (Dobradura Editorial e Alpharrabio Edições, 2017).